Editorial — 01 Dezembro 2008

O Eufemismo
O “pesadelo” já terminou para todos quantos concorreram aos (últimos) apoios directos e indirectos – eufemismo para subsídios – da Direcção Geral das Artes (DGA) / Ministério da Cultura (MC).
Estes “concursos” funcionam, sempre, um pouco como jogar na lotaria por entrarem em jogo uma miríade de factores. Muitos deles imponderáveis, como se tem vindo a verificar pelos resultados de anos anteriores. E pelas reclamações na DGA e queixas noutras instâncias que, invariavelmente, têm vindo a morrer solteiras!
Desta vez, e honra lhe seja feita, algumas coisas foram simplificadas em matéria de formulários sem que, todavia, o Simplex tenha chegado aos quadros destinados aos orçamentos.
Contudo, por melhor artista que seja se não tem computador, hoje, não é gente e não pode concorrer. Ou, em alternativa, terá que pagar a quem lhes preencha a papelada, porque se tiver uma dúvida e for pessoalmente esclarecer-se terá que se ficar pela mesa da recepção da DGA e falar pelo telefone com um funcionário que está no andar de cima!
Desde já, uma conclusão se pode tirar: o resultado das apreciações pelos júris dos dados inscritos nas fichas, só muito mais tarde revelará a bondade (ou maldade) do novo sistema.
Percebeu-se, desde logo, que a filosofia programática se alterou – e que de ingénua ela não tem nada porque há itens verdadeiramente engenhosos para limitar o número de pontos a atribuir – o que não se pode é prever a melhoria e rigor nos resultados que dependerá em muito da honestidade dos que julgam e dos que assinam.
Na verdade, mais importante que distribuir verbas (com critério, seriedade e transparência) é a rigorosa verificação da aplicação dessas mesmas verbas. Com a falta de dinheiro que há e o altíssimo preço da publicidade e da produção de espectáculos, não há ninguém que não precise de uns dinheiros extras.
Penalizados deveriam, finalmente, ser os que, nos últimos anos têm vivido praticamente do “bolo” estatal, pois pouco se importam que o seu trabalho não seja minimamente rentável e apresente pouca visibilidade. Mesmo que poucos tenham acesso a ele e a qualidade seja mais que duvidosa, tem havido um continuado e garantido “respaldo” financeiro do MC, o que é verdadeiramente injusto para quem produz e leva para a frente a dança portuguesa, nas suas áreas mais diversificadas.
Estamos, definitiva e irremediavelmente, enquadrados numa realidade em que para além de sermos artistas, se quisermos aproveitar os poucos meios que o Estado tem ao nosso dispor (e que têm sido sugados por um segmento muito elitista e recorrente de “subsídio-dependentes”), ainda nos temos que desdobrar em gestores e técnicos de informática, se queremos preencher os requisitos impostos pela DGA.
 

A Crise
Repôs-se o “Quebra-Nozes”, as iluminações já brilham nas árvores das avenidas e nas fachadas dos edifícios e as compras estão a chamar-nos.
O Natal não tarda e, antes do Ano Novo teremos no Centro Cultural de Belém outra história com laivos “infantis” – “Branca de Neve”, pelo belíssimo Ballet Preljocaj, sedeado em Aix-en-Provence (França).
O ano de 2008 parece terminar bem – mesmo não tendo sido nada bom para a dança portuguesa – mas o próximo nada de muito estimulante augura!
Não se espera o aparecimento de novas companhias e, se não fecharem as poucas que sobreviveram, já não será mau de todo.
Não têm surgido criadores com chama e os “estabelecidos” oferecem-nos mais… do mesmo!
Não parece existir qualquer “política” para as artes e, muito menos para a Dança – onde está um Conselho Nacional de Dança? Um Centro Nacional de Dança? Uma dúzia de Centros Coreográficos Regionais? Um Museu da Dança Portuguesa e Teatros Nacionais mostrando obras que o próprio Estado financia?
Curiosa e estranhamente, na área da dança, os cargos de gestão são obtidos por nomeação enquanto os artistas só conseguem trabalho através de audições.
Os aspirantes a gestores de artes bem podem fazer mestrados e doutoramentos e inscrever-se em partidos políticos e os ministros bem podem legislar abundantemente, mas, enquanto no Ministério da Cultura não houver conselheiros atentos, cultos e informados – já que se presume que os ministros e secretários de estado nem sempre possuem imaginação e criatividade e não são obrigados a gostar e a conhecer a Dança em profundidade – não parece que nada ande para a frente com planificação e resultados palpáveis, para mostrar dentro e fora do País.
E o pior é que tivemos um ministro que, supostamente, gostava de Dança e que até escreveu um utilíssimo manual sobre História da Dança Portuguesa, mas, ao chegar ao Palácio da Ajuda – sabe-se lá porquê – o poder fê-lo perder completamente a noção da realidade.
Há realmente cada paradoxo!
E para piorar tudo, o orçamento para a Cultura de 2009 desceu com o advogado José António Pinto Ribeiro.
E se isto não é crise, não se sabe o que será.

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Antonio Laginha

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