Dentro — 02 Dezembro 2019
AKRAM KHAN DESPEDE-SE COM XENOS

Akram Khan é, actualmente, um artista de topo da dança mundial e, por tal razão, cada aparição sua é acompanhada de entusiasmo pelo público que entende a dança como uma arte associada ao movimento e este atravessado por vectores como espessura dramática, identificação emocional e virtuosismo físico, entre outros.
Antes de uma única apresentação de Xenos, no Centro Cultural de Belém no último dia do mês de Novembro de 2019, a  sua última incursão no nosso país foi, na qualidade apenas de coreógrafo, com a magnífica peça ITIMOI (In the mind of Igor) para a Companhia Nacional de Bailado, em Março de 2017.
Para além de criador de mérito Akram é um intérprete de primeira água que, aliás, já vem anunciando a sua despedida dos palcos, aos 45 anos, justamente com a supracitada peça. Um solo estreado no início de 2018 no Centro Cultural Onassis, em Atenas (Grécia). 
O coreógrafo exibiu com grande segurança e generosidade o seu estilo (muito pessoal) em que utiliza uma linguagem que se balança entre a dança contemporânea e o kathak – tipo de dança clássica indiana – ao serviço de uma obra rara cuja imagética é variada, complexa e até algo misteriosa. Akram coloca-se, de um modo consensual, e, em simultâneo coloca, com algumas interrogações, o espectador entre dois mundos: o ocidental e o oriental. Entre o gemido e o grito e entre algo que sedimentou e o que está para acontecer, Xenos, é um longo solo inicialmente acompanhado por dois excelentes músicos (BC Manjunath e Aditya Prakash) a que se juntam posteriormente Nina Harris, Clarice Rarity e Tamar Osborn. Tudo acontece numa rampa que ocupa todo o palco e em que aparecem muitas cordas que seguram e puxam cadeiras e outros objectos com alusões a imagens nem sempre facilmente identificáveis.

Trata-se, em primeira análise, um conjunto de situações interpretadas por uma figura masculina vestida com uma túnica ou apenas com umas calças ao longo de mais de uma hora. É um trabalho sobre vários temas que parecem balançar-se entre a angustia, a solidão e o frenesim de um homem que magistralmente povoa todo o espaço cénico. Não há dúvida que surgem, ao longo de mais de uma hora, excelentes ideias coreográficas, algumas imagens avassaladores (o desenho de luzes da autoria de Michael Hulls é notável) e até um falso final que não deixa dúvidas no espectador do controle coreográfico que o artista possui. Em certos aspectos, a peça assemelha-se a um diálogo entre culturas, que parece roçar um pouco a história familiar do próprio Akram que é inglês com origem no Bangladesh.
Xenos, que, segundo o programa, significa em grego estranho ou estrangeiro, evoca o fim da I Grande Guerra, na medida em que o coreógrafo associou a obra ao facto de mais de um milhão de soldados indianos terem combatido pela Inglaterra colonizadora, naquele conflito armado.
Para além da magnífica interpretação de Akram – com uma coreografia viva e bastante enérgica em muitos troços da peça – a iluminação da rampa, de onde rolam bolas, sobem cordas, repousa uma enorme grafonola ou surgem os cinco músicos em linha como estátuas vivas no topo, é engenhosa, efectiva e diversificada.

O coreógrafo fecha, assim e em alta, uma carreira de intérprete com uma obra-prima, inteligente, ambiciosa e sedutora,  que agarra e interpela o espectador. Como se desenhasse um arco de emoções que ao longo de uma espécie de lamento em que, em certos aspectos, a Humanidade se pode rever.  

Fotos:  Jean-Louis Fernandez

 

 

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Antonio Laginha

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