Dentro — 25 Novembro 2019
A EXCELÊNCIA DO BALLET MOISEYEV NO CASINO ESTORIL

Finalmente chegou a Portugal o conhecido Moiseyev Ballet, uma companhia de dança folclórica russa que, desde 1945, data da sua primeira digressão ao estrangeiro, tem feito as delícias de muitos espectadores à volta do mundo.
A comunidade russa, em particular, quase encheu o Casino Estoril durante as noites de 20 e 21 de Novembro.
O enorme grupo de bailarinos, mais de seis dezenas, foi fundado em 1937 por Igor Moiseyev (1906-2007), um coreógrafo talentoso e muito prolífico que tão bem soube mostrar uma vertente popular associada à tradição russa e, até, a outras danças do folclore mundial.
Em Portugal, e tanto quanto está registado, uma das companhias do género que mais sucesso fez no passado foi o Ballet Russo de Irina Grjebina, nos idos anos 64 e 66 e, em 94, a Companhia da Dança de Folclore do Estado da Geórgia (integrada no quadro de Lisboa Capital da Cultura).
É sabido que, durante muitos anos, a antiga União Soviética exportava muita dança clássica e alguma folclórica, mas, este tipo de bailado, pelas suas características, caiu um pouco em desuso como “bandeira russa” depois do colapso da URSS.

É claro que o folclore russo – e mesmo o de outros países que os bailados clássicos de Petipa e Ivanov-Tchaikovski tão bem souberam incorporar – é dos mais ricos e vistosos do mundo. Pelo que, juntamente com um manancial de música de enorme riqueza e roupas atractivas os espectáculos são sempre ricos, diversificados e muito coloridos.
Tendo em conta que este tipo de bailado seria bem mais apropriado a um Coliseu ou mesmo uma sala com um palco mais generoso e que os russos da Linha do Estoril não serão os mais dados a eventos populares, o alto nível de energia que transbordou do palco não teve o eco que merecia na plateia. Inserido nas comemorações dos 240 anos das relações diplomáticas Portugal-Rússia, o programa intitulado “Danças dos Povos do Mundo” começou com uma bela coreografia de conjunto intitulada “Verão”, seguindo-se um vigoroso trio masculino, “Kalmik”, “Tatarochka” e uma suite de Danças da Moldávia. A fechar a primeira parte uma dança guerreira, “Partisans”, em homenagem aos movimentos de resistência nos tempos da mais feroz ditadura. Trata-se de uma coreografia politicamente algo “incorrecta”, em que os homens são apresentados com armas e semblante guerreiro de heróis cheios de adrenalina, em contraste com os elementos femininos, sempre delicados e frágeis, com as suas belas tranças (postiças) e uma atitude submissa e envolta em pudor.


A segunda parte do festivo programa abriu com uma peça coreograficamente mais solta e livre e muito bem disposta, intitulada “Futebol”. Para desanuviar de bailados mais tradicionais, Moiseyev, criou um “show de bola” – com oito jogadores em cada equipa com camisolas do Benfica e do Sporting – em não faltou guarda-redes, árbitro, fotógrafo, polícia, maqueiros e outras personagens, mas, sobretudo a loucura colectiva que quase sempre assola os frequentadores dos campos do “desporto-rei”.
Seguiu-se-lhe a única obra não assinada por Moiseyev, da autoria de Aslan Khadzhaev – exactamente no mesmo estilo das outras – antes de três peças que evocaram respectivamente a Grécia, a Venezuela e a Espanha. A “Jota Aragonesa”, com música de Mikhail Glinka, provou ser uma das mais belas, extrovertidas e enérgicas danças folclóricas de todo o mundo. A terminar a secção internacional uma competição de gaúchos da Argentina armados de longas facas, antes da peça prevista para encerrar o espectáculo: uma suite de danças navais com o título de “Yablochko”.


Já em período de despedida os bailarinos russos ainda esboçaram uma breve, mas carinhosa, homenagem à terra lusa, dançando uns minutos de um solto Vira do Minho.
No final e ainda a pairar um altíssimo nível de adrenalina no palco, os bailarinos recuaram para dar entrada a Elena Shcherbakova, a directora artística do Ballet Moiseyev desde 2011, responsável pela preservação do património coreográfico do Mestre, por uma notável depuração interpretativa e, sobretudo, pela excelência e rigor dos conjuntos a que não pode ser alheio um exigente processo de ensaios.

Fotos: Armando Saldanha 

 

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Antonio Laginha

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