In Memoriam — 18 Outubro 2019
CUBA E O MUNDO DE LUTO POR ALICIA ALONSO


Depois de recorrentes notícias falsas sobre a morte da ballerina cubana Alicia Alonso, o anúncio do seu falecimento no dia 17 de Outubro, por volta do meio dia, no Hospital Cimeq, em Havana – a poucas semanas de cumprir 99 anos, já em Dezembro – foi confirmado pela agência Granma, o orgão oficial do comitê central do Partido Comunista Cubano.

A notícia há muito que era esperada pois o seu estado de saúde era delicado devido à sua avançada idade e porque também eram conhecidas as suas sucessivas hospitalizações. Após o seu corpo ter estado em câmara ardente, no dia 20, no antigo Teatro García Lorca (hoje Grande Teatro de Havana Alicia Alonso), recebendo as homenagens fúnebres de muitos cubanos, os restos mortais da artista foram depositados no jazigo da família no Cemitério Colón, em Havana, onde se dizia que “Alicia nasceu para que Giselle não morresse”.

Alicia, que foi, sem qualquer dúvida, uma das maiores bailarinas do século vinte – e, na opinião de muitos, o expoente máximo da dança romântica no século passado juntamente com a inglesa Alicia Markova e a italiana Carla Fracci – um pouco à semelhança de Fidel Castro, tinha uma legião de fiéis admiradores e, em simultâneo, muitos detractores. Para não dizer inimigos, pois o seu poder foi imenso em Cuba o que, de algum modo, prejudicou ou fez com que (amargamente) muitos e bons bailarinos se exilassem. Quantas vezes por razões artísticas, mas, sobretudo por verdadeiras perseguições políticas.
O seu incomensurável talento e a notável obra que deixou não podem ser ofuscados, mas, o seu lado menos “humano” também não poderá ser esquecido. Neste capítulo nada como consultar a obra La bailarina y el Comandante, de Isis Wirth (2013) subtitulada a “história secreta do Ballet Nacional de Cuba”, que espelha exemplarmente as relações de amizade e políticas que uniam Alicia a Fidel. Ambos – cada um no seu terreno – foram tão carismáticos como controversos.
Já depois do desaparecimento de Castro, Alicia, juntamente com todos os membros do Ballet Nacional de Cuba (BNC), bailarinos e técnicos, fez um “juramento” de fidelidade – na Casa del Alba Cultural – ao conceito da Revolução do desaparecido líder histórico. E antes do enterro de parte das cinzas de Fidel em Santiago de Cuba, Alicia fez questão de ressalvar a importante ajuda do Comandante-Chefe ao bailado cubano que sempre tratou com carinho e respeito. «El legado histórico que nos deja, inmenso y abarcador, está también ampliamente representado en la cultura cubana. Por eso, por siempre y para siempre, decimos ¡Gracias Fidel!» afirmou, então, à imprensa a directora emérita do BNC.

Ainda que o enorme êxito da sua carreira na sua ilha natal seja indissociável do regime “castrista” – antes disso ela já era uma verdadeira estrela nos Estados Unidos da América – Alicia foi uma guerreira que dançou até as pernas exigirem uma cadeira de rodas. A sua presença impôs-se à frente do Ballet Nacional e da escola adjacente à companhia até ao dia do seu falecimento – ainda que de um modo apenas institucional – respaldada por um incomparável palmarés de mais de meio século em actividade, como intérprete de dança clássica e também de fazer remontagens de vários bailados. E tudo isso praticamente cega! Desde os dezanove anos que a bailarina tinha problemas graves num olho, que acabou por perder a visão e, pouco a pouco, o outro foi enfraquecendo até deixar de ver. Apesar de várias cirurgias e de ter permanecido inactiva vários meses em convalescença, era do conhecimento público que dançava com bailarinos muito dedicados que a guiavam em cena e que a iluminação em palco era especial para que pudesse ver, quantas vezes, apenas algumas sombras e não cair no fosso de orquestra. O seu instinto, praticamente, guiava-a no espaço e os seus colegas colaboravam tanto quanto podiam. Por tudo isso, Alicia é, ao mesmo tempo, um exemplo de incrível coragem, indomável persistência e feroz tenacidade. Mas foi, também, uma vítima da sua ambição e do seu próprio ego, já que, diz-se, não olhou a meios para lograr os seus intentos. Apesar da sua longevidade nos palcos, da criação de várias gerações de brilhantes artistas numa escola muito especial (em que muitos alunos procuravam “refugio” das agruras do modo de vida na ilha de Fidel) e de uma companhia de bailado do mais alto nível, as suas coreografias eram, em geral, versões de clássicos de outros que ela adaptou ao “gosto cubano” e fez alguns acrescentos “estilísticos” ou criações originais, que os críticos de bailado fora de Cuba consideravam frequentemente medíocres.
Para esta excepcional personagem, quando comemorou 95 anos em 2015, o BNC levou ao primeiro teatro do país mais uma gala em sua homenagem. E o Granma, em mais uma operação de culto do ego e de deificação, não se poupou a rasgados elogios declarando, simplesmente, “Alicia é a dança”.

                       

Alicia Ernestina de la Caridad dei Cobre Martinez Hoyo (e depois, Alonso, por casamento aos quinze anos com Fernando Alonso), nasceu em Havana a 21 de Dezembro de 1920. Além de prima ballerina assoluta cubana, foi professora, coreógrafa, fundadora – com Fernando (1914-2013) e o cunhado Alberto (1917 – 2008) em 1948 – e directora artística do Ballet Nacional de Cuba, até à sua morte.
Neta de espanhóis, ainda em criança estudou flamenco numa viagem a Espanha com a sua irmã mais velha, antes de iniciar os seus estudos de dança clássica na sua cidade natal, em 1931, na Escuela de Ballet de la Sociedad Pro-Arte Musical, com o russo Nicolai Yavorsky. Em 1937 partiu para os Estados Unidos onde se casou com o colega das aulas de dança e continuou a sua formação com Enrico Zanfretti, Alexandra Federova, Anatole Vilzak e Ludmila Schollar e outros mestres na School of the American Ballet, em Nova Iorque. Posteriormente estudou ainda com as afamadas mestras Vera Volkova, em Londres e Olga Preobrazhenska em Paris.
Começou por dançar na Broadway, em 1938, nos musicais Great Lady e Stars in Your Eyes, tendo um ano depois sido contratada para o elenco do American Ballet Caravan. De vez em quando actuou também no grupo da Pro-Arte Musical, em Cuba. Em 1940 entrou para o Ballet Theatre, data que marcou o início de uma brilhante carreira dançando obras de coreógrafos famosos como Mikhail Fokine, George Balanchine, Leonide Massine, Antony Tudor, Bronislava Nijinska, Jerome Robbins e Agnes de Mille.
Foi a intérprete principal de obras criadas para si como Undertow (Tudor, 1945), Tema e Variações (Balanchine, 1947) Fall River Legend (Agnes de Mille, 1848), Romeu e Julieta (Alberto Alonso, 1946) e, sobretudo, Carmen (Alberto Alonso, 1967). A sua carreira foi interrompida por graves problemas de visão, tendo regressado, já como estrela, ao American Ballet Theatre em 1943. Como membro desta companhia percorreu diversos países do mundo, tendo, em 1948, fundado em Havana, o Ballet Alicia Alonso, que mais tarde se viria a denominar Ballet Nacional de Cuba. Também criou uma escola de dança de onde saíram quase todos os grandes bailarinos cubanos. A partir daí as suas actividades repartiram-se entre ABT e o seu próprio conjunto, o qual manteve com muito poucos apoios estatais, até que em 1959, o governo revolucionário de Fidel Castro lhe ofereceu o suporte necessário para o desenvolvimento de uma das companhias que, segundo a sua orientação, se tornaria mais tarde numa das mais conhecidas do mundo.

Entre 1955 e 59, Alicia Alonso apresentou-se regularmente como estrela convidada do Ballet Russo de Monte Carlo. Foi a primeira bailarina ocidental a ser oficialmente convidada para actuar na ex-URSS e também a primeira artista de bailado do continente americano a pisar o palco do Teatro Bolshoi, de Moscovo, e o do ex-Kirov, actual Ballet do Teatro Mariinski, de Leningrado/São Petersburgo, entre 1957 e 58.
Dançou com alguns dos maiores bailarinos da sua geração, tais como Anton Dolin, Igor Youskevitch, André Eglevsky, Azari Plisetsky, António Gades, Vladimir Vassiliev, Cyril Atanassof e, frequentemente, com o seu discípulo Jorge Esquível e diversos bailarinos que ela formou no Ballet Nacional de Cuba.
Actuou como artista convidada com as mais importantes companhias mundiais, designadamente, os Grands Ballets Canadiens, o Ballet do Século Vinte – de Maurice Béjart – o Ballet da Ópera de Paris, o Ballet Real da Dinamarca e outras.


Abandonou definitivamente os palcos em 1995, aos 74 anos. Porém, em 2012, já com 91 anos e enormes limitações físicas, voltou ao palco do mais importante Teatro de Havana, onde apareceu ao lado de Jorge Vega a dançar Retrato para um recuerdo em homenagem ao grande compositor cubano Ernesto Lecuona (1895-1963) integrada no Festival de Ballet de la Habana, de que era directora. 
Coreografou, entre outros, os seguintes bailados: La Condesita (mus. Nin, 1943), Lydia (mus. A. Nugué, 1951), El Circo (mus. Mántici, 1967), Genesis (mus. Nono, 1978), Dido Abandonada (mus. Angiolini, 1988), Sinfonia Gottschalk (mus. Gottschalk) Pretextes (mus. Marbhant) e Retrato de un Vals (mus. Leucona), todos em 1990.

Para o Ballet da Ópera de Paris montou as suas versões de Grand Pas de Quatre, Giselle e A Bela Adormecida – os dois últimos dançados em Lisboa em Julho de 1979 – assim como para os Teatros da Ópera de Viena e San Carlo de Nápoles. Fez parte do júri dos mais famosos concursos de bailado clássico, tais como Varna, Moscovo, Tóquio e Rio de Janeiro. Considerada internacionalmente como uma das grandes “Giselles” de todos os tempos ela representa o puro estilo clássico, sendo a personalidade mais importante do bailado de toda a América Central.
Visitou Portugal, no período “pós-revolucionário”, à frente do Ballet Nacional de Cuba, tendo-se apresentado em dois palcos de Lisboa (S. Carlos e Coliseu) e da província – Évora, Braga, Coimbra, Porto e Almada (Lisnave) como bailarina principal e directora artística, em 1975.
Lisboa pôde também ver as suas versões de A Bela Adormecida e de Giselle, em 1979, pelo Ballet da Ópera de Paris, no Teatro Nacional de S. Carlos e no Coliseu.
O BNC voltou ao Coliseu com Giselle no início do século XXI.

Alicia recebeu, entre outras, as seguintes distinções: Prémio da revista Dancemagazine, Nova Iorque, 1958, Ordem do Trabalho da República Democrática do Viet Nam, 1964, Grande Prémio da Cidade de Paris, em 1966 a título pessoal, e em 1970 juntamente como Ballet Nacional de Cuba, Prémio Anna Pavlova, Universidade de Dança de Paris, 1966, Medalha de Ouro do Gran Teatro Liceo de Barcelona, 1971, Prémio Porcelli “Una Vida por la Danza”, Itália, 1983, Prémio Gran Teatro de La Habana, Cuba, 1985.
Em 1980 foi homenageada em Paris pela UNESCO e no ano seguinte recebeu a Ordem Félix Varela, do Conselho de Estado da República de Cuba. No México e Panamá recebeu as mais altas condecorações daqueles países, respectivamente a Ordem da Águia Azeteca e a Ordem Vasco Nuñez de Balboa no Japão o Great Honour em 1991. Eminente figura da vida cultural cubana, recebeu os Doutoramentos Honoris Causa em Arte pela Universidade de Havana (1973) e pelo Instituto Superior de Arte de Cuba (1987). Foi proclamada Heroína Nacional do Trabalho e integra o Comité Nacional de União de Escritores e Artistas de Cuba, o Conselho de Colaboração da Direcção Nacional da Federação de Mulheres Cubanas e o Comité Assessor do Ministério da Cultura de Cuba. Foi também membro do Conselho Mundial da Paz e Vice-presidente da Associação de Amizade Cuba-União Soviética. No ano 2000, cinco anos depois de ter abandonado definitivamente a sua carreira de intérprete (aos 75 anos), foi condecorada por Fidel Castro com a Ordem José Martí, a mais alta condecoração do Conselho de estado da ilha.

Em Setembro de 2016, o Conselho de Estado da República de Cuba decidiu, com carácter excepcional, mudar o nome do Teatro García Lorca, para Grande Teatro de Havana Alicia Alonso. No vestíbulo foi colocada uma escultura da “excelsa” bailarina ficando apenas a sala principal com o nome de Federico García Lorca.

Alícia foi casada com Fernando Alonso, com quem dançou nos primeiros anos de carreira e de quem teve uma filha, a antiga bailarina e professora, Laura Alonso, e, em segundas núpcias (em 1975), com Pedro Simón, director do Museu Nacional de Dança de Havana.

Jorge Garcia, bailarino, mestre de bailado e coreógrafo cubano, que vive e tem trabalhado em Portugal desde os anos 70 – depois de ter deixado o Ballet Nacional de Cuba durante uma digressão em Paris – viu Alicia dançar ao longo de muitos anos e considera que em obras (de demi-carctère) como La fille mal gardée e Coppélia era era “simplesmente gloriosa. Em bailados do século XIX, como Giselle e o Grande Pas de Quatre, Alicia demonstrava um domínio técnico e estilístico difícil de igualar, qualidade que lhe vinha, em parte, do contacto artístico que manteve com a ballerina inglesa Alícia Markova. A sua interpretação de Giselle era considerada como uma das melhores so século XX, mas Alonso não lhe ficava atrás. E foi passando essa tradição a muitas bailarinas cubanas. Mas Alicia também era famosa pela sua imaculada técnica em peças virtuosas como o pas-de-deux do Cisne Negro (no Lago dos Cisnes) e, muito particularmente, em Tema e Variações, que George Balanchine criou para ela e Igor Youskevitch. 
Apesar de ter assinado muitas versões dos clássicos, por exemplo, as suas montagens de Giselle e do Lago dos Cisnes que produziu em Havana, Cidade do México, Paris, e outras cidades, as obras originais eram da autoria da mestra inglesa, Mary Skeaping, que se deslocou algumas vezes a Cuba. Já a sua Coppélia e La fille mal gardée foram ensinadas ao BNC por Sofia Fedorova”.

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Antonio Laginha

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