Dentro — 15 Abril 2019
BOMBYX MORI: EVOCAR O NOME FULLER EM VÃO

Desde meados de Fevereiro que tem vindo a decorrer em Lisboa, Porto e Braga, a Bienal de Artes Contemporâneas. Trata-se de um fórum de “artes visuais e cénicas, performance e música”, sob a direcção de John Romão.
Não estando focada especificamente em disciplinas como a dança, o teatro ou, mesmo, a “sétima arte”, a segunda edição do BoCa reúne – até ao final de Abril – mais de meia centena de artistas nacionais e estrangeiros ligados a diferentes áreas do espectáculo. Leia-se, a propostas híbridas em que parece caber, mais ou menos, tudo o que mexe e debita som, quer seja num teatro, num estábulo ou num banco…
Por exemplo, o premiado escritor Gonçalo M. Tavares, com o seu Laboratório de Formas de Sentir Acima da Média, optou por um “encontro inesperado” entre “os animais e o dinheiro”.

Entre os mais variados eventos agendados na capital recuperou-se, no palco da Sala Garrett do Teatro D. Maria II, um trabalho antigo (2004) da bailarina-coreógrafa Vera Mantero, Comer o coração (em cena), em cima duma escultura gigante em metal de Rui Chafes.
De França veio Bombyx Mori que é o nom científico do vulgar bicho-da-seda que a polaca Ola Maciejewska utilizou de um modo criativo – provavelmente aludindo aos tecidos que a famosa Loie Fuller (1862-1928) utilizava nos seus espectáculos banhados de luz e cheios de cor – para um “exercício” monótono e sombrio que não faz jus ao precioso legado da espantosa artista. Marie Louise Fuller nasceu nos Estados Unidos e morreu em França, tendo ficado conhecida sobretudo por associar efeitos luminosos, até então desconhecidos, sobre o movimento de tecidos manipulados por si de um modo exuberante e atractivo. Fuller apresentou-se em Lisboa, no Teatro D. Amélia, em 1902 e, dez anos depois, voltou a apresentar-se no mesmo palco. Em 2016 apareceu nos cinemas a película La Danseuse, um filme-biografia da bailarina, coreógrafa e actriz, que fez furor na Paris de Rodin, Mallarmée e Toulouse-Lautrec e na época pioneira do cinema em que pontuavam os irmãos Lumière.

Ora Maciejewska, deixou de lado a luminosidade do trabalho encantatório daquela que deslumbrou plateias em todo o mundo tendo surgido com uma peça sombria – mais de metade do tempo passou-se, mesmo, na penumbra – e com longas vestes negras que cobriram completamente os corpos de um homem e duas mulheres. Uma delas entra mesmo, em cena, completamente nua e com sapatos de ténis, antes de se cobrir com uma espécie de longa toga.
Mas o mais desinteressante de Bombyx Mori é o próprio movimento da peça que é minimal e repetitivo, com algumas pausas e poucas variantes. Nos primeiros dez minutos, depois dos três intérpretes se levantarem do chão (após passarem 10 minutos manipulando as longas vestes no solo aumentadas por dois paus que prolongam o tecido) ainda os movimentos circulares parecem prometer algo minimamente inventivo. Mas tal não aconteceu e só, mesmo, na recta final o trio de “manipuladores” colocaram-se em linha de perfil no centro do palco e continuaram a rodopiar os paus e, por consequência, o tecido, criando a ilusão de exibir três grandes rodas giratórias sobre o palco.

Na verdade, pouco mais ficou de um verdadeiro tour de force, que a visível força braçal que o trio exibiu para fazer círculos, oitos e pouco mais, durante quase uma hora ininterruptamente.

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Antonio Laginha

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