Dentro — 09 Dezembro 2016
CNB: LA BAYADÈRE, UMA QUASE PRODUÇÃO CLÁSSICA

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A Companhia Nacional de Bailado (CNB), finalmente, estreou no Teatro Camões uma versão completa da obra de Marius Petipa (1818-1910) e Ludwig Minkus (1826-1917), La Bayadère (A bailadeira), no mesmo dia em que o recém-empossado director, Paulo Ribeiro, se apresentou no Teatro (Nacional da Dança) de Chaillot, em Paris, com a sua última peça, “A festa da insignificância”.

Ao contrário do Lago dos Cisnes (de Tchaikovski) ou da Sagração da Primavera (de Stravinski) de que a CNB possui várias versões, La Bayadère apenas mereceu, nos anos 80, um “divertissement” – mais conhecido pelo “Reino das Sombras” – que partilhava um programa triplo. O director de então, Armando Jorge, optou apenas pelo chamado “ballet blanc”, em detrimento de uma produção que é sempre cara já que o enredo do original, estreado a 4 de Fevereiro 1877 no Teatro Maryinski de São Petersburgo e da autoria de Sergei Khudekov, coloca o drama de um inusitado “triângulo amoroso” na mítica Índia.   

A história da malograda bailadeira do templo foi, neste período pré-natalício, entregue a Fernando Duarte que, inevitavelmente, acabou por tentar “encostar” esta versão à de Petipa. Ora tal não é muito credível por todas e mais algumas razões! Provavelmente situa-se no “estilo” de Petipa e mais ao “jeito” das (requintadas) versões de Rudolfo Nureyev e, sobretudo, de Natalia Makarova, dois antigos bailarinos do Ballet Kirov que, “fugidos” da Rússia, retomaram no Ocidente a versão “tradicional” de V. Chabukiani e V. Ponomarev (1941). Essa, assumidamente, segundo a “revisão” de 1932 da pedagoga e coreógrafa Agrippina Vaganova do original de Petipa, que completará 140 anos em breve.

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O bailado em causa relata a história de uma bailarina do templo, Nikiya, que se apaixona pelo guerreiro Solor ao mesmo que repudia um alto sacerdote que os apanha a jurar amor eterno. Mas o volúvel Solor, ao aceitar a oferta de casamento de Gamzatti, a bela e rica filha do rajá, quebra um voto solene feito em cima do fogo sagrado e Nikiya morre, na sua presença, picada por uma víbora e de coração destroçado. Tal como em “Giselle”, o remorso faz com que Solor chore sobre o corpo daquela que traiu. A peça tem o seu epílogo nas visões de Solor, depois de fumar ópio, e no meio das brancas sombras femininas em que Nikiya se agiganta.

Duarte dividiu o bailado em três actos – o original tinha quatro – economizando tempo e mímica e agilizando a narrativa sem, todavia, perder o fio à meada. E reduziu quase para metade (costumam ser 32 bailarinas) o famoso corpo-de-baile do acto branco. Que, diga-se em abono da verdade, é um dos mais difíceis de todo o reportório académico-clássico, conferindo ao conjunto feminino um desafio e dignidade ímpares. As danças de conjunto em frente de um suposto templo hindu (retirado dum postal com uma mesquita inglesa) ou de um inusitado conjunto de selos, são atractivas e os bailarinos dançaram-nas, ao mesmo tempo, com “verve” e correcção. O que de melhor se pode exigir de um corpo-de-baile que nem sempre tem primado pela coesão e que à míngua de bailarinos que são pagos para não dançar ainda tem que recorrer aos alunos do Conservatório Nacional.

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De salientar também a “dança da infusa”, protagonizada por Irina Oliveira, que foi um momento azougado e prazenteiramente “naif” e a participação do misterioso “ídolo de bronze”. Um breve mas expressivo  momento em que ao estagiário Francisco Sebastião foi dada uma das danças mais virtuosas e difíceis de todo o bailado. E que, diga-se de passagem, ele executou com primor e segurança, ainda que pudesse ter sido mais brilhante se tivesse puxado mais pelo “ballon” (elevação no salto). Quanto aos solos e conjuntos femininos – quase todos de superlativa dificuldade no último acto – de um modo geral foram bem executados tendo em Inês Ferrer, Tatiana Grenkova e Inês Moura, as três “sombras” solistas.

No que toca aos papéis principais na estreia (8 de Dezembro), Nikiya, esteve a cargo da bailarina japonesa Miyu Matsui – saída do corpo-de-baile – que tem um corpo de eleição e uma técnica limpa mas faltou-lhe drama e pathos, sobretudo nos primeiros actos. Já no “reino das sombras” todo o seu dançar foi sempre fluído e com leveza e “souplesse”. Carlos Pinillos foi um Solor sóbrio e correcto – como sempre com uma técnica limpa e sem costuras – mas não terá sido particularmente convincente nas cenas de paixão. Nem pela sua mulher (na vida real), Filipa Castro, que encarnou o papel de Gamzatti. Filipa foi a bailarina mais dramática do “plateau”, num registo que lhe assenta muitíssimo bem e num papel que construiu com pathos, autoridade e determinação.

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A jovem Orquestra de Câmara Portuguesa, sob a direcção atenta e segura de Pedro Carneiro, deu um particular impulso à obra ao contribuir com um som claro e bem delineado.

Fernando Duarte teve também um excelente aliado em José António Tenente no desenho dos figurinos. Mais uma vez na sobriedade, na justa medida e na belíssima paleta cromática que combina com o exotismo da Índia milenar. Já na cenografia, José Capela parece ter partido de uma boa ideia – selos e postais de uma determinada época – mas perdeu-se com banalidades como as duas fiadas de “bolachas” gigantes com pavões nas laterais – animais que já apareceram numa produção do Scala assinada por Natalia  Makarova – e “lettering” de computador. Mas, sobretudo, com uma gravura barroca com uma espécie de altar no meio de uma guirlanda de nuvens/ algodão doce, como fundo para a “trip” opiácea de Solor. A inclinada rampa que dá à entrada das “sombras” momentos de quase tirar o fôlego, foi quase anulada e, a piorar, foi imposto ao campo visual do espectador um fundo que distrai e quase tira a magia e o ambiente em que o pesadelo de Solor se deve transformar em sonho!  Mas pior que certos desajustes entre enredo e arquitectura de cena foi a presença de adereços feios e a “gritar”… modernidade. Designadamente o simulacro de fogo, logo na primeira cena, que parecia uma peça de esferovite digna de uma escola amadora de bailado de subúrbio, para além de um pseudo retrato de Solor, que se assemelha a uma pintura (desfocada) de Noronha da Costa ou a uma fotografia gigante trabalhada no Photoshop!

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Assim, em matéria de dança, os arranjos coreográficos e a interpretação de La Bayadère esteve à altura, ainda que a produção, em geral, pelas razões apontadas, não seja particularmente excitante. No que concerne à cenografia falta-lhe profundidade (já para não falar em grandiosidade e patine que, aliás, fazem parte intrínseca da sua natureza) muito provavelmente, derivada de conhecimentos pouco credíveis e da ausência de um estudo mais sólido para recriar uma peça museológica com “charme” e harmonia. E que, acima de tudo, honre a memória de Petipa e Minkus e, porque não, também dos quatro cenógrafos que trabalharam na altura da sua estreia.

Todavia, com ela a CNB quase voltou a ter uma “produção clássica” – e não peças travestidas de vazia modernidade -, esperando-se que, deste modo, se feche um ciclo duvidoso, despesista e de má memória para uma companhia estatal que tem fortes responsabilidades no panorama artístico de todo o País, em geral, e no rarefeito tecido da dança, em particular.

E que, daqui em diante, qualquer revisitação séria e competente dos “clássicos” se transforme em “festas com significância” e o público faça, finalmente, as pazes com a CNB no que toca à dança académico-clássica. 

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Texto: António Laginha

Fotos: Bruno Simão, cedidas pela CNB 

 

 

 

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Antonio Laginha

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