Dentro — 05 Novembro 2015
COMEMORAÇÕES DO I CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE MARGARIDA DE ABREU

Margarida de Abreu Des. Eduardo Malta (3)

Numa iniciativa conjunta dos CTT, Correios de Portugal e do Museu do Teatro e da Dança, realiza-se a 26 de Novembro, pelas 17h00, nas instalações do museu na Estrada do Lumiar, nº 10, em Lisboa, a apresentação do selo de Margarida de Abreu (1915-2006) e respectivo carimbo, no dia do primeiro centenário do seu nascimento.

Trata-se de uma cerimónia de homenagem àquela que é unanimemente reconhecida como uma das personalidades mais marcantes das artes do século XX português, e considerada, por muitos, a “mãe” da dança portuguesa.

convite

Bento José da Câmara (ao centro) na opereta “As Três Valsas” (de Albert Willemetz e Leopold Marchant com música de Johnn e Óscar Strauss) estreada no Teatro Monumental, em Lisboa, a 8 de Novembro de 1951

Unanimemente reconhecida como uma das personalidades mais marcantes das artes do século XX português, Margarida de Abreu é considerada, por muitos, a “mãe” da dança portuguesa.

 Ela foi, indubitavelmente, uma mulher ímpar podendo-se afirmar que, tendo em conta certas limitações que se reflectiram no seu longo percurso artístico, a sua influência foi particularmente importante num período em que a pedagogia e a profissionalização no bailado em Portugal eram, praticamente, inexistentes. Para muitos, teve o mérito de, em vida, ter entrado “definitivamente na ainda pequena história do bailado clássico português de que ela foi a verdadeira percursora, a grande impulsionadora e uma persistente animadora e lutadora”.

Dona Margarida (como era conhecida pelos seus alunos) revelou-se uma figura de proa no desenvolvimento da dança portuguesa e, segundo alguns estudiosos, a ela deve-se, mesmo, uma geração, primeiro de bailarinos e depois de professores que saíram do seu estúdio e do seu grupo de bailado privado, o Círculo de Iniciação Coreográfica (CIC). E, acima de tudo, de um significativo grupo de criadores que vão de Águeda Sena a Olga Roriz, passando por Fernando Lima, Carlos Trincheiras, Armando Jorge, Vasco Wellenkamp, Jorge Trincheiras e muitos outros.

É de destacar também o seu papel mecenático, o qual proporcionou a vinda a Lisboa de alguns vultos do bailado internacional – para trabalhar com o CIC – e permitiu a alguns alunos períodos de aperfeiçoamento artístico no estrangeiro.

Um pouco à semelhança de Ninette de Valois – a pioneira da dança inglesa e personalidade, entre muitas outras, referida no seu “Manifesto” datado de 1946 -, Margarida de Abreu, que também estudou fora do seu país de origem, tentou pôr de pé uma companhia privada, alimentada pelos seus alunos (ou melhor, alunas) do Conservatório Nacional e do Círculo de Iniciação Coreográfica, para que dela nascesse uma companhia verdadeiramente profissional.

“Ao fundar-se o C.I.C., complemento natural e lógico da Academia de Bailado, objectivava-se a formação de artistas, de público e, de um modo geral, do gosto e compreensão por esta forma de arte” e, em simultâneo, lançaram-se as bases da doutrina estética de Margarida de Abreu: “fusão da dança e música no quadro da acção dramática”, pois, “nem só virtuosismo escolástico, pois sem coração não há arte, nem só inspiração plástica, pois sem técnica não há estilo: fusão estética do corpo e da alma, ardendo nas etéreas regiões do sonho”.

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MARGARIDA DE ABREU (Margarida Hoffmann de Barros Abreu Salomão de Oliveira) Lisboa, 26 de Novembro de 1915 – Lisboa, 29 Setembro 2006. Professora, coreógrafa e directora artística.

Nasceu na casa de seus pais, no número 79, no terceiro andar esquerdo da Avenida Duque de Ávila, e faleceu no Hospital de S. Maria quase com 91 anos. Era filha de mãe suíça, de origem alemã, a professora Anna Helena von Hoffmann Abreu – da família dos marqueses von Leuchtenstern – e de pai português, o advogado António de Barros Mendes de Abreu. Era sobrinha da mulher do político Afonso Costa, irmã da pianista Maria Helena de Freitas Branco e foi cunhada do musicólogo João de Freitas Branco.

Foi casada com o escultor João Salomão de Oliveira, um seu aluno, e mãe da professora Margarida Carmo e da bailarina do extinto Ballet Gulbenkian, e actual professora, Maria João Salomão.

Teve em Lisboa o primeiro contacto com a rítmica “dalcrozeana” através da inglesa Cecil Kitkat (professora das educandas do Instituto de Odivelas) e posteriormente da grega Anastasia (Sosso) Dukas-Schau (1911-1997). Frequentou na Suíça o Institut Jacques Dalcroze (Genebra) onde se graduou em 1937. Prosseguiu os seus estudos na Alemanha, na Deutsche Tanz Schule (Berlim) e na Austria, na Hellerau Laxemburg Schule (Viena).

Professora do Curso de Bailarinas e do Curso de Teatro do Conservatório Nacional (1939-1986) e do Centro de Estudos de Bailado do Instituto de Alta Cultura, vulgo Escola do Teatro de S. Carlos, (1964-1972). Fez dois estágios, na qualidade de professora, respectivamente em 1947 e 1948, na escola do Sadler’s Wells, hoje Royal Ballet School. Fundadora e directora do Círculo de Iniciação Coreográfica (1944-1960), do qual sairam posteriormente os Bailados Margarida de Abreu, o Bailado em Acção e o Grupo Studium. Entre 1960 e 1975, de parceria com o seu discípulo Fernando Lima, exerceu as funções de directora artística do Grupo de Bailados Portugueses Verde Gaio.

Coreografou, entre outros, Bailado Setecentista (mus. Carlos Seixas, 1943), Crisfal (mus. Ruy Coelho, 1943), Pastoral (mus. Ivo Cruz, 1943) O Pássaro de Fogo (mus. Stravinsky, 1946), Serenata (mus. Mozart, 1946), Arraial da Ribeira (mus. Ruy Coelho, 1946), Fêtes (mus. Debussy, 1946), Tágides (mus. Tchaikovsky, Britten e Bach, 1947), Nova Chopiniana (mus. Chopin, 1947), Quadros de uma Exposição (mus. Mussorgsky, 1947), Concerto (mus. Schumann, 1949), Polaca Heróica (mus. Chopin, 1949), Tito e Berenice (mus. Tchaikovsky, 1949), Dança do Vento (declamação do poema de Afonso Lopes Vieira, 1949), Grazioso (mus. Bach, 1952), Clair de lune (mus. Debussy, 1952), Ab Initio (mus. Dvorak, 1953), O Passeio público (mus. Elvira de Freitas, 1957), Nocturnos (mus. Debussy, 1958), Sinfonia Italiana (mus. Mendelsshon, 1960), Prólogo Galante (mus. Carlos Seixas, 1961), Condestável, de colaboração com Fernando Lima (mus. Luis de Freitas Branco, 1963), O Douro correu para o mar, de colaboração com Fernando Lima (mus. Cláudio Carneyro, 1963), Pastoral (nova versão, 1963), Festa na Aldeia (mus. Ruy Coelho, 1965), A menina dos Olhos verdes (mus. Cláudio Carneyro, 1971), etc. bem como diversas peças no TNSC (Leonor Teles, Aida, Um Baile de Máscaras, Rigoletto, etc.).

Coreografou uma opereta de grande sucesso, “As Três Valsas” (de Albert Willemetz e Leopold Marchant e música de Johnn e Óscar Strauss) estreada no Teatro Monumental, em Lisboa, a 8 de Novembro de 1951 com Laura Alves e João Villaret nos papéis principais. No cinema, foi a coreógrafa dos filmes “Amor de Perdição”, “Francisca” e “Os Canibais”, de Manoel de Oliveira.

Após deixar o ensino oficial continuou a leccionar no seu estúdio, tendo coreografado algumas obras (“Improvisos”, “Uma Alma Que Se Liberta” e “Viagem Sem Destino”, todos sobre partituras de Mahler, “Movimento Perpétuo”, com música de Bach e “Amor se Lamenta”, com música de Jayme de la Téy Sagán), e organizado apresentações esporádicas com os seus alunos.

Nos dias 26 e 27 de Maio de 1899, comemorou 40 anos de carreira no Teatro Nacional de S. Carlos com a participação do Ballet Gulbenkian e da Companhia Nacional de Bailado. A 4 de Março de 1989 comemorou meio século de actividade artística com um espectáculo realizado também no Teatro Nacional de S. Carlos e em que, entre outras obras, apresentou novas versões coreográficas de “Sinfonia Italiana” e “Concerto”. Em 1994 remontou “Nuages” (mus. Debussy), para alunos da Escola Superior de Dança.

No dia 31 de Março de 2000 realizou um espectáculo comemorativo dos 60 anos de actividade no Teatro Nacional de S. Carlos e em Junho de 2004, um espectáculo no Auditório 2 do CCB, com alunos da sua escola.

Para o Dia Mundial da Dança de 2005, dia 29 de Abril, a CêDêCê remontou excertos de “Quadros de uma Exposição”, tendo organizado, paralelamente, uma exposição comemorativa intitulada “Memória. Gratidão. Homenagem” e uma mesa redonda em que Margarida de Abreu participou, ao lado de Fernando Lima e Maria José Salavisa.

Agraciada com a Ordem de Instrução Pública (1979); recebeu o Troféu da Casa da Imprensa, nesse mesmo ano e a Medalha Almeida Garrett numa homenagem no Conservatório Nacional, (1980), Troféu do Jornal “Sete” (1988), Medalha de Mérito Artístico do Conselho Brasileiro da Dança (1990) e o Troféu Verbo, por ocasião do lançamento do Livro Anualia. Em Abril de 2007 foi agraciada, a título póstumo, com a Medalha Municipal de Mérito – grau ouro – da Câmara Municipal de Lisboa.

carimbo MA 

 

                                           

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Antonio Laginha

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