Breves — 16 Outubro 2015
PIONEIROS DA DANÇA EM PORTUGAL EM EMISSÃO FILATÉLICA

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Os Correios de Portugal, homenageiam, pela primeira vez em selos, os “Pioneiros da Dança em Portugal”, numa emissão filatélica representada por seis grandes artistas portugueses: Margarida de Abreu, Francis Graça, Fernando Lima, Isabel Santa Rosa, Águeda Sena e Carlos Trincheiras. A emissão foi lançada no dia 9 de Outubro, Dia Mundial dos Correios, tendo por pretexto o centenário do nascimento de D. Margarida, que é, justa e unanimemente, considerada a “mãe” da dança portuguesa.

Trata-se de uma viagem simbólica aos primórdios da Dança Portuguesa do século XX, através de figuras que foram seleccionadas com um critério tão rigoroso quanto objectivo. Ainda que seja uma selecção reduzida, o nome de Margarida Abreu – cujo centenário do nascimento se celebra em Novembro deste ano – seria sempre uma referência incontornável.

Segundo Águeda Sena, a única representada em selos ainda viva, mas há muito afastada dos palcos, “esta emissão tem um valor inestimável para as novas gerações e agradeço reconhecidamente a quem teve a ideia e muito se esforçou para que ela fosse possível. Sobretudo numa época em que se valoriza exageradamente o que vem de fora e se dá tão pouco crédito ao nosso trabalho. Fico muito contente de ver ratificado o talento da minha professora Margarida, como o da maior bailarina portuguesa do meu tempo, Isabel Santa Rosa, para além de três coreógrafos com quem muito trabalhei e de quem tenho grandes saudades. Apesar de ter vindo tarde para eles, é muito gratificante para mim já que tenho a certeza de que 99% dos académicos e professores de História da Dança no nosso país nem imaginam que muito antes de Pina Bausch ter feito dança-teatro na Alemanha já eu fazia um estilo semelhante e que é possível observar em dezenas de programas gravados nos anos 60 pela RTP. Em Abril de 63 iniciei na televisão portuguesa uma forma inédita de dança, com a rubrica ‘Poesia e Movimento’, em que se deu relevância aos poemas de Fernando Pessoa e dos seus heterónimos, bem como de alguns poetas ‘malditos’ em tempo de ditadura, conjugando dança, música e declamação. Essa foi, seguramente, a nossa forma de dança-teatro. Tanto quanto me é dado saber só em Janeiro de 1964 apareceu pela primeira vez o ‘género’ alemão, sem qualquer troca de informação entre artistas dos dois países. Também poucos sabem que a delegação portuguesa à Expo’70, no Japão, recebeu o prémio do melhor espectáculo entre mais de 200 países, com a peça ‘Namban Matsuri’, com coreografia da minha autoria. Só isso já era mais que suficiente para se valorizar quem – durante décadas – tanto deu à dança nacional”.

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Sendo a dança, provavelmente, a mais viva de todas as artes e, decerto, a mais efémera, torna-se necessário não deixá-la morrer na memória dos que se interessam pelas artes, designadamente as teatrais. Não apenas os bailarinos, mas também aqueles que contribuem para o vigor e criatividade da dança. Os que na sombra passam conhecimento, de geração em geração, e os que, assinam as várias componentes das criações a que outros dão visibilidade.

Com esta emissão, os CTT pretendem aplaudir todos os bailarinos nacionais, mas também aqueles que por detrás das cortinas do espectáculo contribuem para que esta arte se mantenha viva.

 

Notas Biográficas 

Francis Graça  (1902-1980)

No panorama da nossa dança Francis Graça é um caso mais do que singular. É quase um autodidacta que se transformou no primeiro bailarino, coreógrafo e director artístico de uma companhia de dança profissional, os Bailados Portugueses Verde Gaio (1940-1983). Apesar da sua arte ser conotada com um regime “maldito”, durante muitos anos, com grande coragem e muita persistência, levou a dança masculina aos teatros de Lisboa, o folclore português “estilizado” a vários países e a sua coreografia aos melhores palcos nacionais e a alguns estrangeiros de gabarito. Foi, deste modo, um pioneiro na verdadeira acepção da palavra. O seu percurso artístico, ainda que algo sinuoso, foi longo e, sobretudo, manteve-se ligado a uma matriz vincadamente portuguesa nos temas que coreografou. Apesar de nenhuma das suas muitas obras ter sobrevivido, os seus contemporâneos elogiavam-lhe os dotes coreográficos e um particular bom gosto na concepção teatral das suas peças, produzidas sempre com a colaboração de outros artistas portugueses de nomeada.

Margarida de Abreu (1915-2006)

Quis ser bailarina mas o destino trocou-lhe as voltas. Dançou pouco mas haveria de ensinar e coreografar por muitos e longos anos.

“Nem só virtuosismo escolástico, pois sem coração não há arte, nem só inspiração plástica, pois sem técnica não há estilo: fusão estética do corpo e da alma, ardendo nas etéreas regiões do sonho”, escreveu um dia sobre a Arte de Terpsícore.

Considerada a mãe da dança portuguesa, nasceu numa família pertencente a uma burguesia endinheirada – era sobrinha de Afonso Costa e a sua mãe era suíça de origem aristocrática – e atravessou todo o século XX tendo ensinado durante décadas e com reconhecimento muitos dos que, verdadeiramente, haveriam de construir a dança de contornos profissionais no nosso país. Do seu estúdio e pequena companhia privada – o Círculo de Iniciação Coreográfica – saíram Fernando Lima, Águeda Sena e Carlos Trincheiras, para além de uma extensa lista de artistas de reputação que promoveu e, alguns, até patrocinou. Grande impulsionadora da nossa dança, trabalhou com artistas como Almada Negreiros e trouxe a Lisboa estrangeiros como Norman Dixon, que, anos depois, havia de estar na origem do Ballet Gulbenkian. Dona Margarida, que foi co-directora e coreógrafa do Verde Gaio, ficou conhecida pela habilidade para arranjar danças e pela grande musicalidade que imprimia a todos os seus trabalhos. Recebeu a Ordem de Instrução Pública e o Prémio da Casa da Imprensa (em 1979), a Medalha Almeida Garrett (1980), o troféu do Jornal “Sete” (1988) e o Prémio do Conselho Brasileiro da Dança (1990).

 Fernando Lima (1928-2005)

Fernando Lima foi o primeiro português a impor-se como bailarino clássico no país. Com Águeda Sena e a italiana Anna Mascolo – todos saídos do Círculo de Iniciação Coreográfica – formou o trio de bailarinos mais conhecidos da sua época, tendo com a primeira formado uma parceria única na vida e no palco e fundado até duas companhias de dança – O Ballet Concerto e os Ballets de Lisboa. Depois de uns anos de experiências artísticas no estrangeiro, dedicou-se à coreografia, tendo viajado pelo mundo com uma pequena companhia na “linha” do Verde Gaio. O trabalho de ambos no Teatro de Revista foi particularmente relevante e deixou seguidores. Coreografou muito para o ecrã e, desde o seu início em Portugal, foi, sem dúvida, o coreógrafo do seu tempo que mais trabalhos fez para a RTP. Em 1961 assumiu a direcção dos Bailados Portugueses Verde Gaio, com a sua mestra, Margarida de Abreu, tendo ambos leccionado e coreografado durante alguns anos até quase à extinção do grupo em 83. Recebeu vários prémios: o da Imprensa, em 1968, e a Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores, em 2005.

Águeda Sena (1927)

Possivelmente nenhuma coreógrafa portuguesa do século vinte terá sido tão criativa como Águeda Sena. Esteve na génese de vários grupos privados, com o seu marido Fernando Lima, com ele dançou e coreografou para o Teatro de Revista e fez várias séries de programas de bailado no início da televisão em Portugal. Manteve um forte vínculo com o Ballet Gulbenkian, companhia a que esteve ligada durante quase duas décadas, e também com o Teatro Experimental de Cascais. A sua vida foi um turbilhão de paixões.  Privou de perto com figuras ilustres das artes e das letras nacionais e internacionais que frequentavam a casa de seu pai, o pedagogo Faria de Vasconcellos. Conheceu Pablo Picasso, Edite Piaf, Ninette de Valois, Pablo Neruda, Frederick Ashton, Jean-Louis Barrault e Jean Villar, entre outros. Viveu em França e em Inglaterra, numa altura de grandes dificuldades económicas e pessoais. Foi a criadora mais dançada na primeira fase do Ballet Gulbenkian e sem sombra de dúvida, a coreógrafa portuguesa mais produtiva e admirada da sua época, num meio, então, marcadamente masculino. Até meados da década de 70 o seu trabalho foi, temporada após temporada, apreciado tanto no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), como em digressões do Ballet Gulbenkian no país e no estrangeiro. A sua peça de maior fôlego foi o grandioso evento multidisciplinar intitulado “Namban Matsuri” apresentado na Expo’70 de Osaka, no Japão. Conquistou vários prémios da Imprensa e das Câmaras de Cascais e de Oeiras e a Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores, em 2005.

Isabel Santa Rosa (1931-2001)

Filha de portugueses nasceu e viveu em Casablanca (onde se formou em dança) até quase à idade adulta, mas sempre considerou Portugal a sua pátria. Estabelecida em Lisboa teve várias oportunidades de sair do país e dançar no estrangeiro mas o seu sonho foi contribuir com o seu talento para dar um melhor nível à dança nacional. Uma espécie de “Margot Fonteyn portuguesa”, reinou incontestada na nossa dança durante cerca de três décadas. Nenhuma como ela dançou, com a mesma espontaneidade, entrega e entusiasmo, obras clássicas, contemporâneas e, até, de temática folclórica no início da sua carreira. Foi cobiçada por muitos coreógrafos nacionais e alguns estrangeiros famosos (Balanchine, Lifar e Nikolais) mas, sobretudo, foi muito amada pelo público português. Artista generosa, carismática e inteligente, de personalidade vincada e convicta do seu portuguesismo, brilhou, acima de tudo nas criações do seu marido, Carlos Trincheiras. Dedicou toda a vida à sua arte e por tal foi galardoada com diversos Prémios da Imprensa e outros. Figura de proa do Ballet Gulbenkian, Santa Rosa despediu-se com tristeza de uma companhia que ajudou a alicerçar tendo rumado ao Brasil para prosseguir o seu trabalho. Desde muito nova que se interessou pela pedagogia da dança que desenvolveu mais intensamente no outro lado do Atlântico, onde foi professora e ensaiadora (no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e Curitiba) tendo regressado a Portugal, após a morte do seu marido, para dirigir a Companhia Nacional de Bailado, nos seus derradeiros anos de vida.

Carlos Trincheiras (1937-1993)

Depois de dançar durante alguns anos obras do reportório clássico e peças contemporâneas, no Grupo Experimental de Ballet e no Grupo Gulbenkian de Bailado, após um acidente de trabalho que o impediu de continuar uma carreira regular de intérprete, tornou-se no coreógrafo português que mais bailados produziu, nos anos áureos daqueles agrupamentos e no início do Ballet Gulbenkian.

Foi um acérrimo defensor daquilo a que se pode, eventualmente, chamar um “bailado português”, sem apelos folclorísticos, cujas obras, quantas vezes, se basearam em episódios históricos ou em temas de cariz mais universalista. Para além da sua formação com Margarida de Abreu e na Escola de Marie Rambert, em Londres, já profissional reconhecido fez estudos em vários países da Europa, designadamente na Alemanha. Como pedagogo soube, de um modo muito particular, incutir um imenso amor pela arte da dança e incentivar vigorosamente e com disciplina os seus alunos. Todos os que com ele dançaram, estudaram ou, apenas, privaram, nunca deixarão de lembrar a sua notável vitalidade, enorme entusiasmo e particular empenho no seu trabalho. Faleceu no Brasil onde, com expressivo sucesso, dirigiu (e também coreografou) durante 14 anos o Ballet do Teatro Guaíra, de  Curitiba, cidade onde está sepultado. Distinguido com alguns Prémios da Imprensa para o melhor coreógrafo (em 1968, 72 e 74), e no Brasil em 83, uma década depois foi condecorado – a título póstumo –  com o grau de Comendador da Ordem do Infante Dom Henrique.

 

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Antonio Laginha

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