Dentro — 05 Outubro 2015
23ª QUINZENA DE DANÇA DE ALMADA: EPISÓDIOS PARA CINCO

 

ph.AntoÌnioCabrita

A Quinzena de Dança de Almada, já na sua 23ª edição, apresentou um espectáculo no Fórum Romeu Correia que não encheu mais que meia sala à mesma hora em que, do lado oposto da rua, a poderosa máquina de campanha de um partido político reunia milhares de pessoas algo alienadas na gritaria de slogans pré-fabricado e de um seguidismo muito comum nestas situações.

Era, pois, na quietude de um teatro onde se reflecte, cria e se desafia o pensamento, que o público esperava algo bem diverso do que ocupava uma boa parte dos portugueses nas últimas horas de mais uma aguerrida campanha eleitoral.

A proposta era “Displaced Episodes”, de Margarida Belo Costa, uma coreógrafa jovem oriunda das Caldas da Rainha e associada ao Quorum Ballet. Trata-se de uma peça de quase uma hora já apresentada em Lisboa e Alcobaça para cinco intérpretes, a própria criadora, Joana Puntel, Miguel Ângelo, Bruno Duarte e Luis Malaquias.

O placo apresenta-se escuro e nele sobressaem um sofá claro onde todos s e sentam e uma televisão (colocada de costas) e que atrai os artistas como um imã. E roupa, muita roupa escura pendurada no lado direito do palco. O trabalho divide-se, basicamente, por duetos e um quinteto final e, pelo meio, alguns dos artistas avançam até à boca de cena para falar para a plateia com um microfone. A sua linguagem é, por vezes complexa, e outras, algo simplistas resultando em mensagens desfocadas e pouco perceptíveis. A atitude dos bailarinos situa-se entre o irónico e o obsessivo, juntando-se  e separando-se, envolvendo-se  e repelindo-se. A determinada altura, um dos casais surge, mesmo, com um tipo de movimento um pouco inusitado dentro do conjunto. Existe mesmo um bailarino, Miguel Ângelo, que se mexe de uma maneira algo diferenciada com uma linguagem amaneirada e sincopada afastando-se do conceito geral. Pode-se afirmar que todo o trabalho se baseia em sucessivos episódios que se vão dissolvendo uns nos outros, sem um fim à vista e que se pretende retratar cenas de um quotidiano algo vazio e inconsequente.

ph.AntoÌnio Cabrita

“Displaced Episodes”  – que em português quer dizer algo como Episódios Deslocados (ou fora do lugar) – é um trabalho forte, em que o movimento insiste na retina dos espectadores, com uma música algo difícil – de características acentuadamente percussivas, repetitiva e algo “perfurante” – e interpretada com consistência e foco.

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Antonio Laginha

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