Dentro Sem categoria — 03 Maio 2014
OEIRAS CELEBRA DIA MUNDIAL DA DANÇA COM DUETO MASCULINO

rendez-vous  VHP

O Dia Mundial da Dança de 2014 comemorou-se em Oeiras – e um pouco por todo o país – sem um laivo de pompa e quase nenhuma circunstância. No caso referido, até se registou um dia depois da própria efeméride agendada para o dia 29 de Abril, data em que se celebra o nascimento do bailarino, coreógrafo e teórico francês, Jean-Gorges Noverre (1727–1810), com um dueto masculino da autoria do vimaranense Vitor Hugo Pontes.

A autarquia oeirense deu “Rendez vous” (encontro, o título da obra) aos seus munícipes no Auditório Eunice Muñoz, mas, mesmo com entradas gratuitas, a proposta não despertou o interesse de mais de três escassas dezenas de espectadores.

Será curioso referir que o trabalho em questão, interpretado pelo próprio coreógrafo e por Marco Ferreira, parece conter tudo aquilo em que a chamada dança portuguesa contemporânea é tão pródiga. Desde logo um desinteressante título numa língua estrangeira e perfeitamente traduzível para português.

“Encontro” apresenta-se num palco descarnado apenas com uma dúzia de projectores à vista e um esquema luminotécnico praticamente inexistente. As sonoridades/ música são pobres não passando de umas sequências pianísticas gravadas (propositadamente, presume-se) como ruídos, que alternam com uns longos e entediantes silêncios… Os intérpretes surgem vestidos com uma roupa básica “estilo Zara”, que se resume a fato cinzento e camisa branca – um com gravata e o outro com papillon/ laço – usando sapatos de ténis, que, desde logo, limitam o contacto dos pés com o solo e determinam o tipo de movimento possível de ser produzido. O qual, em grande parte da peça, se pode associar a uma proposta de… “não-dança”.

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Os adereços usados são triviais e infantis – no caso dois sacos de plástico que trazem dentro duas grandes cabeças de animal – e servem apenas para um pequeno jogo sexual, sem quaisquer implicações, entre um coelho e um porco com corpos de homem. Essa passagem assemelha-se a uma espécie de “kamasutra” em “slow motion” em que se simulam poses sexuais monocórdicas e mecânicas, que, sendo um pouco imprevisíveis não se revelam nada improváveis. Também surge uma sequência de “capoeira” – dança afro-brasileira – executada com desenvoltura e alguma sensualidade por Marco Ferreira, o vencedor do concurso televisivo “Você Acha que Sabe Dançar?”. O bailarino também alinha numas sequências, soltas e desierarquizadas, com uns traços de danças de rua e uns saltos meio desengonçados. Já Hugo Pontes guarda para si uma pequena graça tentando desajeitadamente, e num registo algo ridículo, uns passos de dança clássica que possivelmente lhe sobraram de algumas ideias que aplicou em um dos seus trabalhos anteriores, “A Ballet Story”. Após uma curta “luta de machos” só faltou, mesmo – para se enquadrar na linha da moda – tirarem a roupa e, porque não, lamberem-se um ao outro. Enquanto Marco Ferreira é um bailarino com uma fisicalidade interessante e intenso na abordagem do movimento, Hugo Pontes representa exactamente o seu oposto.

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O espectáculo terminou numa onda de “cabaret” (com um número que nem chegou ao “vaudeville”) que consistiu numa canção pelo próprio coreógrafo cuja garganta emite uns miados com a languidez da de Maria de Medeiros e o timbre da do Zé Cabra, em versão poética muito “hard core”, como, aliás, convém nos dias de hoje.

De microfone na mão e nas mãos de Marco Ferreira, o pseudo cantor andou às voltas no ar e, de cabeça para baixo ou no solo frente a frente com o seu parceiro, teve um inusitado ataque de coprolalia. Com uma letra muito básica – para não dizer meio pateta – a toada é composta apenas por palavrões em várias línguas, que não criam repulsa nem riso e, sobretudo não acrescenta nada a um arrevesado discurso coreográfico onde a dramaturgia é débil, ténue e desfocada. Sobretudo se se tiver em conta o resumo da peça proposto no programa.

Partindo de um tipo de movimento desenraizado, solto e descomposto, Vitor Hugo Pontes, cuja formação original foi a pintura, segue uma linha que se poderá dizer, na esteira de Jérôme Bell. Porém, todos os ingredientes apontados e o impressionante curriculum, sobretudo na área da encenação e no circuito dos concursos, não geraram grande entusiasmo na plateia nem, provavelmente, deixaram muita vontade de dançar ou de ver de dançar!

Neste primeiro quartel do século XXI parece termos entrado na derradeira fase de um curioso paradigma da dança: a chamada não-dança, que certas elites expontâneas (ou não) tanto propagandeiam e apoiam. Tudo leva a crer que muito do que hoje se vê em cena acabará por, no futuro, se vir a revelar nada mais que o estertor de uma época que teimosamente continua a viver mais de ideologias avulsas do que, verdadeiramente, do vigor do movimento.

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Antonio Laginha

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