In Memoriam — 14 Julho 2013
DUAS DÉCADAS SEM MADALENA PERDIGÃO (1923-1989)

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Maria Madalena Bagão da Silva Biscaia (Farinha) de Azeredo Perdigão (Figueira da Foz, 28 de Abril de 1923 – Lisboa, 5 de Dezembro de 1989) foi, sem dúvida, uma das figuras que maior influência exerceu na vida artística do país no longo período em que desenvolveu actividade na Fundação Gulbenkian e, de igual modo, fora dela.

A sua figura parece ter surgido no momento certo (para a Dança e para a Música) na vida da jovem Fundação e, aparentemente, também na do seu Presidente do Conselho de Administração.

A Dr.ª Madalena era vista essencialmente como uma figura tutelar e, em simultâneo, uma mulher elegante, requintada, de fina inteligência e muito poderosa, que marcava presença, frequentemente, ao lado do seu marido, nos eventos da Fundação.

Em relação aos artistas do Ballet Gulbenkian, ainda antes de se ter retirado da direcção do Serviço de Música, era tida como uma figura semi-invisível. Mesmo quando administrava a companhia raramente descia aos estúdios e espaços ocupados pela dança. Quanto muito, espreitava com extrema discrição, algum ensaio de palco do camarote presidencial atrás das cortinas e aparecia nas estreias com o marido. Pode-se, mesmo, dizer que havia um certo mistério à sua volta. Após a sua saída da Fundação a sua influência nos destinos do Ballet Gulbenkian não era nada clara. Nos anos a seguir ao 25 de Abril, em que a companhia começou a renovar-se devido a uma política artística que parecia passar pelo fomento de uma geração de bailarinos portugueses – enérgicos e muito empenhados no seu trabalho – e alguns coreógrafos de uma nova safra, ela continuava (fora) a ser a mulher do presidente vitalício e (dentro), a ter pessoas da sua confiança a trabalhar na instituição. Para os artistas mais maduros do elenco, a sua “sombra” nunca abandonou o grupo de dança. Referiam, amiúde, que os problemas que se verificavam no quotidiano do BG, primeiro gerido por sucessivas Comissões Artísticas, após a saída de Sparemblek, e, posteriormente, por Jorge Salavisa, ‘seriam resolvidos de imediato pela mão sábia da Dr.ª Madalena, não tivesse ela sido saneada’ ! Havia, pois, todo um capital de confiança e uma aura de competência e eficiência que se não desvaneceu. Ao contrário das “novas caras” que se apoderaram do BG que pareciam ter uma atitude mais mercantilista e menos emocional em relação aos artistas!

Após dez anos de uma condição que a própria afirmava ter sido uma espécie de ‘interregno’ na sua carreira mas que se dizia ter sido forçada a tal – apesar de Madalena Perdigão nunca ter deixado de ser a omnipresente mulher do Presidente de Administração da FCG – a “demitida” directora do Serviço de Música recupera a acção directa e o brilho. Reaparece com uma posição que fazia crer (ou pretendia) ser algo ‘marginal’ dentro da própria Fundação, sem grande alarido e com um novo tipo de estatuto. E logo, justamente, com um trabalho que foi, a todos os níveis, notável e reconhecido dentro, mas sobretudo fora, das paredes da FCG. Esse longo período de ‘reflexão’ a que, voluntaria ou involuntariamente se obrigou, sobre as artes no Mundo, fê-la, depois, trazer a Lisboa alguns homens ligados às ‘novas tendências europeias’ com os quais gizou a criação de um novo ‘filho gulbenkiano’, o chamado ACARTE. Esse outro impulso imprimido às artes performativas em Portugal, foi testemunhado por toda a Lisboa quando, durante anos e anos, se passava junto do edifício da Praça de Espanha e os consumidores de uma “nova vaga de espectáculos vanguardistas” davam  a volta ao quarteirão para assistir – fora do edifício principal – ao que de melhor e mais expressivo, então, se fazia na Europa e no resto do Mundo. (…)

Até fim da sua vida o casal Perdigão sempre exibiu uma postura a que habituou todos os que frequentavam os eventos da Fundação. Por ironia do destino, algumas vezes dava a impressão (muito positiva, aliás) que Madalena Perdigão quase ‘arrastava’ o marido – já de uma provecta idade – para os espectáculos do Ballet Gulbenkian. Mostrava, assim, o seu amor pela dança e a sua admiração pelos bons profissionais – os melhores do País – a que a Fundação dava trabalho. Mas já na recta final, muito afectada pela doença que a vitimaria, aparecia nos eventos do ACARTE, com o mesmo brilho nos olhos mas amparada pelo fiel marido.

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 Habituei-me, desde jovem, a associar o nome de Madalena Perdigão a uma das principais referências na área da Cultura em Portugal. Foi ela que me proporcionou o acesso aos eventos culturais que a Fundação oferecia na década de 60 e 70, incluindo as temporadas do Grupo Gulbenkian de Bailado – no Grande Auditório – e as digressões ao Sul do país, para além dos concertos de música erudita.

Também devido a ela aprendi a gostar de Dança e a ver toda a espécie de exposições, desde pintura até à escultura, passando pela fotografia e arquitectura, quando frequentava a Escola Superior de Belas Artes, de Lisboa.

Foi com ela que o nosso País, nesses anos de grande isolamento, apesar de tudo, foi podendo ver alguns dos maiores vultos mundiais no campo da música e da dança. A criação do Ballet Gulbenkian, da Orquestra e do Coro e, duas décadas depois, do Serviço ACARTE, com os espectáculos de vanguarda na Sala Polivalente do CAM, conferência e oficinas artísticas, concertos à hora de almoço e toda uma panóplia de eventos avulsos e ciclos de programas culturais (dos quais, naturalmente, se destacavam os estivais Encontros ACARTE) só podiam ter partido de uma mulher multifacetada cuja formação académica estava ligada às ciências exactas mas que, inteligentemente, soube alargar os seus horizontes para uma área que igualmente dominava na perfeição: a Música.

Tanto ela como o marido, faziam a diferença, quer na qualidade artística com que agigantaram a Gulbenkian, quer na postura de abertura de portas que sempre demonstraram enquanto estiveram à frente da instituição. Mais do que uma vez Azeredo Perdigão deu instruções directas para que fosse franqueada a entrada a jovens que não conseguissem bilhetes para espectáculos e que fossem acomodados na sala, pelos arrumadores, nas coxias laterais ou, mesmo, atras da plateia ou no balcão. Ele utilizava, com generosidade, a máxima: a Gulbenkian nunca fecha as portas a ninguém; enquanto Madalena soube sempre imprimir criatividade e uma imensa qualidade aos programas que criou e desenvolveu. Formaram um casal raro e preciso e foram uns verdadeiramente ministros da cultura neste País. 

António Laginha

Lisboa, Dezembro de 2009

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