In Memoriam — 11 Junho 2013
GRAÇA BARROSO (1950-2013) APAGOU-SE UMA ESTRELA DA DANÇA PORTUGUESA

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Faleceu na manhã do dia 11 de Junho a antiga bailarina principal do Ballet Gulbenkian, Graça Barroso.

Uma das maiores artistas da dança portuguesa – e seguramente a melhor da sua geração – Graça Barroso Garcia da Silva, nasceu em Lisboa, a 7 de Novembro de 1950. Pelo que completaria, dentro de 5 meses, 63 anos.

Bailarina de fino recorte técnico e artístico, começou por estudar dança com Helena Miranda tendo, posteriormente, ingressado na classe de ginástica rítmica do Sporting Clube de Portugal. Daí o seu porte atlético apesar de possuir uma figura bastante frágil. Voltou a interessar-se pelo bailado, anos mais tarde, tendo regressado aos estúdios nas classes dos ingleses Anna Ivanova e David Boswell, na chamada Escola do Teatro de S. Carlos (entre 1965 e 1967).

Entrou para o Grupo Gulbenkian de Bailado, em 1968, sob a direcção de Walter Gore, tendo ascendido à categoria de solista na temporada de 70-71.

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Dançou papéis principais em obras do reportório clássico, de Carlos Trincheiras (“Amor de Perdiçäo”) e de Lar Lubovitch (“Messias”), entre outros.

Em 1971 deixou Portugal a fim de estagiar, como bolseira da Fundação Gulbenkian, na escola da conhecida professora norte-americana Rosella Hightower, em Cannes. Aí permaneceu cerca de um ano antes de integrar o elenco do Ballet de Estrasburgo (1972), então dirigido por Jean Babilée. Nessa companhia criou papéis em obras de Babilée e, antes de regressar definitivamente a Portugal em 1974 após a “revoluçäo dos cravos”, actuou em vários países da Europa com o Grupo Jovens Solistas de França.

No Verão de 1974 interpretou a Princesa Florina no bailado “A Bela Adormecida”, no Teatro Nacional de S. Carlos, numa produção de Anna-Marie e David Holmes, directores dos Cursos de Verão da Costa do Sol.  Na temporada de 74-75 retoma o seu lugar no Ballet Gulbenkian, tendo sido promovida a primeira bailarina em 1977.

Graça BARROSO - amor d eperdição - 1970Naquela companhia foi um dos seus elementos mais activos num período de grandes convulsões dentro da Fundação tenho contribuído, em muito, para o afastamento do então director, o esloveno Milko Sparemblek .

Criou um dos papéis principais das “Bodas” (a Noiva), de Christopher Bruce e dançou lugares de destaque sobretudo em obras de Vasco Wellenkamp, tais como, Concerto em Sol Maior (1975), Requiem (1975), Outono (1976), Libera Me (1977), Noite das Quatro Luas (1977), Suite Lírica (1978), Glória (1978), Tempo Suspenso (1979), Antemanhä (1980), Percursos Oscilantes (1981), Danças para uma Guitarra (1982), Estranhos Transeuntes (1983), Só Longe Daqui (1984, co-dirigido por Ricardo Pais), Interiores (1985), Antigas Vozes de Crianças (1986), Memória para Edith Piaf (1987), Exultate Jubilate (1987), Passacaglia Op.1 (1989), etc.

Dançou também os papéis de Fada do Açucar, no bailado “Quebra Nozes” (1977), e o da Bailarina de “Petruchka” (1978) e lugares solísticos em bailados de Hans van Manen (“Canções Sem Palavras” e “Twilight”), de Jiri Kilián (“Nuages”), de John Butler (O Som da Noite) de Carlos Trincheiras (“Inter-Rupto”) e de Olga Roriz (“Casta Diva” e “Isolda”).

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Durante a sua carreira de bailarina foi distinguida com alguns dos mais importantes prémios de interpretação para o bailado nacional: Prémio da Imprensa, 1971 e 1981, Prémio Nova Gente, 1981 e Prémio Revista Mulheres, também em 1981.

Reformou-se do Ballet Gulbenkian em 1993, tendo começado a dar aulas na Escola Superior de Dança, dois anos depois. Nessa instituição permaneceria quase década e meia.

Em 6 de Novembro de 1993, a pretexto da passagem do 25º aniversário da sua carreira, foi homenageada (por um grupo de amigos) com um espectáculo que reuniu alguns dos melhores bailarinos portugueses no Centro Cultural de Belém.

Como o seu companheiro Vasco Wellenkamp fundou, em Janeiro de 1997, a Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo, que ambos dirigiram.

A bailarina era irmã do cirurgião Eduardo Barroso e sobrinha da actriz e activista política Maria Barroso.

 

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” (…) Bailarina que conta no seu reportório com alguns dos mais belos duetos da história da dança portuguesa.

A sua carreira estará para sempre associada ao Ballet Gulbenkian – e aos trabalhos coreográficos de Vasco Wellenkamp, em que ela colaborou activamente na sua criação – onde praticamente “sucedeu” à “ballerina” Isabel Santa-Rosa. As duas, cujas carreiras se revelaram longas e frutuosas, e cuja arte foi aplaudida em Portugal e no estrangeiro, poderão mesmo – e sem exageros – ser já consideradas as nossas melhores bailarinas deste século.

António Laginha Correio da Manhã, 7 de Novembro de 1993)

 

 

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Antonio Laginha

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