Dentro — 11 Abril 2019

De volta ao Teatro Camões, para uma curta série de espectáculos – 10, 11, 12 e 13 de Abril – a Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo (CPBC) juntou um expressivo grupo de uma dezena de jovens bailarinos e dois convidados, também portugueses, para uma triple bill intitulada Na substância do tempo, em homenagem à poetisa Sophia de Mello Breyner Andersen.
Fundado em 1998, por Vasco Wellenkamp e Graça Barroso, o grupo tem tido um percurso algo irregular voltando agora à ribalta, como uma espécie de fénix renascida. Não das cinzas, mas reiniciada com novos elementos para contribuir com dança para a programação das comemorações do primeiro centenário do nascimento de Sophia.

O título da primeira peça da soirée (“escrita” a quatro mãos por Wellenkamp e Miguel Ramalho, bailarino da Companhia Nacional de Bailado) Em redor da suspensão, de certo modo, consubstancia muito do que tem sido o “legado” de antigo coreógrafo do Ballet Gulbenkian (BG) para a dança portuguesa.
Trata-se de uma obra para dez bailarinos e música de piano (Franz Lizt e Serguei Rachmaninoff) algo evanescente e de laivos sentimentais, cujo foco incide na precisa manipulação de corpos cheios de energia e fome de espaço, de modo a produzir um efeito de leveza e perenidade. Sem qualquer enredo reconhecível, a dança que tem um certo horror ao vazio, durante uns bons minutos vive menos da ilusão do que da corrida, do salto, dos levantamentos, dos abraços e da queda sempre num registo de leveza e forte impulso cinético.
Já quase no final ouvem-se (em gravação) umas belas palavras de Sophia que, naturalmente, tentam ligar a literatura à dança. A articulação do movimento com o poema, contudo, surge de um modo algo aleatório e um pouco decorativo, pelo que não acrescenta grande coisa a um bailado que mostra, acima de tudo, a pujança de corpos com um objectivo comum: servir o léxico dos dois coreógrafos.
Considerado um dos autores portugueses que, ao longo da sua extensa carreira, produziu alguns dos mais belos duetos da dança portuguesa, Wellenkamp reincidiu o ano passado com uma peça nova, mas, com música velha.
Outono para Graça, evoca uma obra, Outono (Ballet Gulbenkian, 1976), e uma bailarina, Graça Barroso (1950-2013) à sombra do famoso Adagietto da 5.ª Sinfonia de Gustav Mahler. Outono foi, há mais de quatro décadas, um bailado marcante que catapultou o coreógrafo para a linha dianteira do BG e, em simultâneo, um veículo para Graça Barroso ascender à categoria de bailarina principal da companhia. De certo modo, ocupando o lugar, então, deixado vago por Isabel Santa Rosa. Era uma obra com forte pendor sentimental e emotivo protagonizada por uma jovem que se envolvia com um homem maduro (Carlos Caldas) e que explodia em ansiedade, temperada por um toque de erotismo sempre balizado pelo decoro que a própria instituição (a Fundação Calouste Gulbenkian) implicitamente impunha. Tal como Concerto em sol maior (1975), foi um trabalho de sucesso e algo inesperado no contexto da própria companhia, funcionando como uma espécie de obra de charneira na carreira de ambos, o coreógrafo e a sua bailarina-fetiche.


Ora, no dueto interpretado por Patrícia Henriques e Miguel Ramalho – que foi criado para uma gala no Teatro Nacional de São Carlos o ano passado – nada parece ter restado daquele Outono, nesta Primavera. Para além da música. Não só porque os intérpretes são fisicamente muito diferentes dos originais, como toda a linha dramática se desvaneceu. Entre os citados bailarinos, muito focados e tecnicamente rigorosos – dir-se-ia, mesmo, impecáveis no particular jeito que Wellenkamp tem para movimentar pares, e que, por sua vez, lembra o estilo de Jiri Kylian – existe, sem qualquer dúvida,  uma enorme cumplicidade. Mas, ansiedade, paixão e fragilidade são coisas muito diferentes. Em vez de dois corpos a respirarem um mesmo drama – como no passado – tivemos um casaco a mudar de corpo cinco vezes e uma sucessão de intrincados movimentos cheios exuberância, entrega e muito virtuosismo.


A terminar e a melhor peça do programa foi, Requiem, uma dança criada para a CPBC e para a qual Wellenkamp foi buscar o título a uma obra sua coreografada para o IV Estúdio Coreográfico do BG, em Julho de 76. E a música de Benjamin Britten (1913–1976), já fora utilizada por Milko Sparemblek também num trabalho na mesma companhia, intitulado Sinfonia da requiem – Diálogo entre uma mulher e uma ausência, datado de 1967.
Os dez bailarinos, mais Miguel Ramalho – que volta a dançar a peça quinze anos após ter participado na sua criação – desempenharam com enorme cumplicidade uma dança densa, movimentada e com visível substância coreográfica e emocional. A manipulação do material que, há muito, faz parte do léxico do coreógrafo exibe pulso e criatividade e, uma vez mais, os artistas deram um excelente contributo. Apesar de juventude de alguns deles em face de um clima algo tenso que exige um certo peso e um controle dramático que apenas surge com alguma maturidade interpretativa. A obra evoca um ambiente de angústia e comprometimento que os acertados figurinos de Liliana Mendonça – simples, efectivos e de cores adequadas – complementam. Sendo que a belíssima iluminação de Requiem tem, verdadeiramente, o toque de mestre. No caso vertente, o do já desaparecido Orlando Worm.
É de salientar que os onze bailarinos demonstraram um generosidade e um foco num trabalho de topo de um coreógrafo que, apesar das vicissitudes e de uma linha que se repete, teima em continuar no activo.
Tivemos uma vez mais, com a CPBC, uns laivos de memória no Teatro Camões de um certo Ballet Gulbenkian que foi inesperada e dramaticamente extinto no Verão de 2005. E o público correspondeu com prolongados aplausos, coisa que, naquela desterrada sala, é tão importante e vital. 
A CPBC voltará aos palcos no Forum Municipal Luísa Todi, em Setúbal, a 31 de Maio e na abertura do Festival Algures a Nordeste, no Teatro Municipal de Bragança no dia 7 de Setembro.

fotos: Helena Gonçalves

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Antonio Laginha

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