Dentro — 18 Março 2018
COMPANHIA NACIONAL DE BAILADO e OS BALLETS RUSSES EM LISBOA: DUAS OBRAS EM FORMATO REDUZIDO

Na recta final do ano de 2017, em que se comemoraram as quatro décadas de existência da Companhia Nacional de Bailado (CNB) e um século sobre a curta saîson dos Ballets Russes (BR) em Lisboa, a Imprensa Nacional – Casa da Moeda, lançou no mesmo dia (5 de Dezembro) em Lisboa, duas obras em pequeno formato. Respectivamente, “O Essencial Sobre a Companhia Nacional de Bailado”, da autoria de Mónica Guerreiro, a convite de Luísa Taveira, ex-directora artística da CNB, e “O Essencial Sobre os Ballets Russes”, da investigadora Maria João Castro, por sugestão de José-Augusto França.

A primeiríssima coisa a assinalar é o facto de (infelizmente) a edição de obras sobre dança ser tão rara em Portugal, que surgirem duas obras num mesmo dia é um “fenómeno” que, supõe-se, nunca aconteceu desde 1143!

O citado lançamento coincidiu com duas efemérides: o primeiro espectáculo da CNB, em 1977, no Teatro Rivoli, no Porto, e a chegada dos últimos artistas dos Ballets Russes a Lisboa, vindos de Madrid no Sud Express, cuja estreia em Portugal se deu no dia 12 de Dezembro de 1917.

As autoras, certamente, tiveram metodologias e motivações distintas. Enquanto Mónica resolveu dar à estampa em 156 páginas uma série de “vinhetas” sobre a CNB, Maria João partiu de um capítulo da sua tese de doutoramento, intitulada “A Dança e o Poder”, na sequência de uma obra prévia que coordenou, sobre a estada da companhia de Serge de Diaguilev na capital portuguesa.

O primeiro livro reúne alguns dos episódios mais relevantes da história da nossa companhia nacional e factos menos conhecidos do funcionamento da entidade, actualmente dirigida pelo coreógrafo e bailarino Paulo Ribeiro.

Já o segundo é uma espécie de up grade de uma obra “Os Ballets Russes em Lisboa” (2014), exaustivamente pesquisada pela autora, mas cujo conteúdo resultou particularmente fragmentado

As duas têm em comum a enorme distância que as separa dos palcos, ou, mencionando um autor que a primeira cita no seu livro:  “não se terem submetido durante anos ao ‘calvário’ de um estúdio (de dança)”. No caso de Mónica Guerreiro que escreveu, antes desta “biografia da CNB”, uma laudatória “fotobiografia” de Olga Roriz, o caso é mais problemático por, ao longo de 40 tópicos, ter entrado por caminhos que lhe são muito pouco familiares. Para não dizer… alheios. É claro que alguém sem qualquer formação académica em dança, sem quaisquer conhecimentos técnicos dessa arte e sem qualquer experiência de palco, “erra o alvo” quando decide dissertar sobre “arabesques” e afins (pas a pas, p.153). Também quando utiliza o galicismo “ballet”, em vez de bailado, ou, por exemplo, escreve “programa de sala” – em vez de programa de espectáculo ou, simplesmente, programa – uma vez que não se conhecem programas de quarto ou de cozinha!

Para um livro que nos remete para o “essencial” de uma companhia estatal de dança, a obra de Mónica Guerreiro revela-se muito informativa mas a autora, simplesmente, não soube onde se deter. Posto isto, e em linguagem muito pouco académica, a obra tem muita “palha” e preocupa-se mais com um passado recente do que equilibrar a informação em termos históricos. Em muitos aspectos assemelha-se a uma manta de retalhos constituída por factos significativos a que se juntou uma série de episódios e “fait divers” mais ou menos relevantes. A autora parece ter querido tocar, ao mesmo tempo, as teclas de ébano e de marfim do mesmo piano. Não se percebe porque aparecem mini capítulos que versam temas como “Sapatilhas de ponta” (p. 59) e “Doenças, sequelas & superstições” (p. 61), ou mesmo “a crítica” de dança (p. 117) a não ser que a encomenda fosse paga à linha!

De um modo geral a obra não apresenta grande coerência em certos conteúdos nem na própria cronologia, pois (como atrás se afirmou) foca-se de um modo desigual nos trabalhos dos próprios directores.

No caso específico do “trabalho dos críticos de bailado” – tema que era perfeitamente dispensável por a autora dar igual valor a “não-críticos” e a profissionais com solidez artística, académica e profissional – Mónica Guerreiro escolheu, também, alguém sem qualquer percurso na comunidade artística para validar opiniões mais ou menos extemporâneas. É que, actualmente, há mais quem escreva a troco de bilhetes (nas horas vagas) para “fazer política” do que, verdadeiramente, com algum sentido artístico e, sobretudo, espírito de missão.

E por falar em política, tendo a CNB sido, em muitos aspectos, escrava de um poder que, em muitas ocasiões se suplantou às boas decisões artísticas, é estranho que esse factor – demasiado presente na vida da companhia – não tenho sido devidamente analisado pela autora. Que optou por ignorar factos significativos ou, simplesmente, não os conhece. Ou não é por acaso que até cita um “elogio” do Tribunal de Contas à CNB mas não refere um significativo relatório de 61 páginas do mesmo tribunal em que se revela o desaparecimento de 3,6 milhões de euros num só ano. Facto que culminou com condenações da directora e subdirector então em actividade.

No caso dos Ballets Russes, obra que tem apenas 97 páginas e 11 capítulos, não se pretendeu fazer dela uma obra de fundo, por isso, o essencial está lá! É um documento que nos deixa uma ideia de como em Lisboa as três semanas de espectáculos dos BR se tornaram num verdadeiro “pesadelo”. E em como esse “desastre” quase fez com que a companhia terminasse em terras lusas a sua brilhante carreira no final da I Grande Guerra.    

Maria João Castro, fala de uma companhia russa “que nunca actuou na Rússia” e chama-lhe (errada e repetidamente) de trupe. Uma designação mais adequada a grupos de saltimbancos, ainda que em Portugal o estatuto da companhia tivesse descido ao seu nível mais baixo.

A autora também incorreu em algumas imprecisões no que se refere ao “legado” dos BR em Portugal, designadamente nas obras apresentadas, mais de meio século depois, pelo Ballet Gulbenkian e na CNB e, curiosamente, no elenco dos artistas que vieram a Lisboa. Designadamente na omissão da presença de Thadée Slavinski, (Varsóvia 1901- Dunedin, 1945) um bailarino que, pouco tempo antes, se tinha juntado aos Ballets Russes.

É de notar que a autora junta recortes de jornais e preciosa documentação fotográfica da época. 

Em jeito de epílogo o que parece mesmo importante é que, para além de pequenas obras sobre a nossa dança, é mais do que útil – é absolutamente necessário -, que os nossos artistas se sintam bem representados e se revejam em obras de fundo pois motivos e temas, certamente, não faltarão para engrandecer a História do nosso bailado.

 

 

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Antonio Laginha

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