Entrevista — 24 Novembro 2012
… A PROPÓSITO DE PAISAGENS PROPÍCIAS

Há mais de três décadas que “a consciência social que Ana Clara Marques impõe em cada criação garantem, à partida, o sucesso de cada um dos seus projectos”. Mesmo tendo em conta toda uma série de dificuldades que bailarinos, professores e criadores encontram num país com recursos mas que nem sempre leva a sério a “missão” de construir diariamente um projecto de dança de “qualidade”.

Já a sua mãe era uma figura da dança que, no passado, estabeleceu pontes com artistas e pedagogos portugueses. A bailarina e coreógrafa, que depois de estudar em Luanda, se formou na Escola Superior de Dança (em Lisboa) é a mentora da Companhia de Dança Contemporânea de Angola (CDC), que, recentemente, convidou o bailarino da Companhia Nacional de Bailado (de Portugal), Rui Lopes Graça, para passar algum tempo em Angola para coreografar uma peça baseada na obra do escritor Ruy Duarte Carvalho. Dessa colaboração nasceu “Paisagens Propícias”.

Revista da Dança – Para além do desafio em si (que lhe foi proposto pela Ruth Magalhães) porquê Ruy Duarte de Carvalho, além obviamente da vontade de o homenagear?

Ana Clara Marques – Homenageando o Ruy de Carvalho, homenageamos, necessariamente, os povos pastores e as culturas do deserto, do sul de Angola. Todavia, para a CDC este é mais um desafio e mais uma oportunidade de mostrar que é possível tratar um tema ligado a formações socio-culturais que mantêm ainda fortes ligações com a tradição, sem nos obrigarmos a uma abordagem etnográfica das suas danças e música. Este trabalho é  mais uma prova de que a cultura tradicional não pode deixar-se eternizar apenas nos cânones originais, tendo a possibilidade de abrir a sua identidade à arte erudita, ao trabalho de reflexão intelectual, não menos angolana do que nas suas formas vetustas. A cultura ancestral (que não é estática) deve perpetuar-se e a arte contemporânea dá-nos a possibilidade de a recuperar e de a devolver noutros discursos estéticos mais próximos das novas gerações.

RD – Sendo um criador que abarcou imensas vertentes do saber é, exclusivamente, a partir da poesia e da música que se desenrola o espectáculo, ou as vertentes da antropologia, do cinema e da prosa também estarão subjacentes à peça que construíram?

ACM – Esta pergunta terá, certamente uma resposta mais precisa por parte do coreógrafo. No entanto, posso adiantar que o interesse desta peça reside muito na profundidade com que o Rui Lopes Graça articulou detalhes das sociedades pastoris com aspectos da história de vida do Ruy Duarte de Carvalho e mesmo da sua maneira de ser, de um carácter tão “especial” como aquele que todos conhecíamos no Ruy.

RD – O Rui Lopes Graça, que nasceu em África, mostrou uma especial empatia na forma como abordou a vossa colaboração. Em que medida as suas propostas, alteraram (ou completaram) as suas ideias iniciais ?

ACM – Enquanto directora artística, coube-me fazer-lhe a proposta, falar-lhe do tema e do Ruy Duarte, apresentar-lhe os bailarinos e a restante equipa da CDC. Depois, o Rui Lopes Graça ficou entregue aos estudos e à sua imaginação e capacidade de sintetizar um universo enorme numa coreografia de cerca de uma hora. O resultado foi uma peça distinta, em harmonia perfeita com uma banda sonora criada expressamente para o efeito, ambas muito enraizadas nas sociedades do sul, mas muito estilizadas do ponto de vista estético.

RD – A CDC já tem condições para dar sequência a este tipo de parcerias, ou o Ministério da Cultura bem como outras entidades, deviam dar apoio muito para além do institucional, que pudesse levar a que, “quadros a sério”, neste caso um artista de facto sabedor, sério e importante para o ulterior desenvolvimento da dança contemporânea fixassem de facto residência entre nós?

ACM – Os convites e residências artísticas são uma prática comum em todas as companhias do mundo. É essa diversificação que faz desenvolver o trabalho do colectivo, que lhe acrescenta prestígio e que faz crescer (técnica e artisticamente) os bailarinos. Para a CDC que, de facto, não está preparada financeiramente para esta prática, este foi um passo que exigiu de nós um grande sacrifício. No entanto, e porque no nosso país ainda não está clara a importância deste tipo de trabalho para o desenvolvimento e projecção da nossa cultura dentro e fora do país, tivemos de o fazer, para provar que temos nível profissional e artístico bastante para que um coreógrafo estrangeiro, reconhecido internacionalmente aceite trabalhar connosco. De igual modo, o coreógrafo israelita Ido Tadmor, que esteve entre nós há pouco tempo, se declarou impressionado com o nosso trabalho, do que resultou um convite para a participação da Companhia de Dança Contemporânea num dos maiores festivais internacionais de dança contemporânea.

Voltando à questão inicial, é claro que para estas acções é necessário um suporte financeiro que a CDC não tem e que deverá, necessariamente, ser providenciado através de doações, subsídios e apoios permanentes, à semelhança do que acontece com as outras companhias – mesmo com as maiores – a nível mundial. E esta é outra sensibilização que tem de ser feita. Nenhuma companhia de dança em nenhuma parte do mundo sobrevive com receitas de bilheteira, muito menos em Angola, onde a opção da CDC não é vender bilhetes a 100, 150 ou mais USD, mas a preços acessíveis para que toda a sociedade, principalmente os jovens (camada a educar e a formar) tenham acesso.

RD – Gostaríamos que fizesse uma apreciação global da evolução da dança em Angola, não necessariamente só ao nível da dança contemporânea.

ACM – O facto de termos uma única companhia de dança profissional, um cada vez maior número de professores sem diplomas a dar aulas de dança e assistirmos à crescente promoção de grupos sem qualquer valor artístico a apresentarem-se nos mesmos palcos que aqueles colectivos que possuem um trabalho mais cuidado, é já uma resposta expressiva.

Para uma mudança do cenário, teremos de esperar que se desenvolva um forte sistema de ensino académico da dança que produzirá grande número de profissionais desta área e teremos que regulamentar o ensino particular. Por outro lado, são precisos mais espectáculos de dança com qualidade artística e de nível profissional, para que o público abra os seus horizontes, cultive a sua capacidade de apreciação estética e deixe de ter um olhar limitado sobre o que é a dança.

RD – A profissionalização é fundamental para que o caminho se faça de forma mais séria e até com mais defesas para o aprofundamento dos vossos objectivos. Com tantos problemas básicos que vivemos em Angola, como conseguem manter acesa essa chama, essa perseverança?

ACM – Costumo dizer que há, em todas as épocas e em todas as sociedades, pessoas que vivem para assumir missões. E esta tem sido a minha missão que, como todas, tem sido penosa, frustrante e muitas vezes angustiante. Mas eu sei que estou certa nos meus desígnios e tenho a vantagem (e o privilégio de ser assim) de valorizar mais o lado espiritual do que o material, o que me permite dedicar-me a esta causa sem um olhar e uma atitude egoísta e gananciosa. Um dos problemas básicos é, muitas vezes, a falta de uma visão mais alargada relativamente a alguns sectores, particularmente ao sector artístico, o que deve ser entendido num contexto mais alargado, pois não é uma exclusividade de Angola. Efectivamente, compreender que a arte é uma questão básica a resolver, enquanto factor fundamental de desenvolvimento, demora o seu tempo (há ainda uns poucos países europeus que não resolveram este problema). Eu luto desde 1979 e ainda não consegui vencer a guerra, mas já temos várias batalhas ganhas; são as poucas vitórias de que nos orgulhamos. E sei que não estou sozinha. Em todo o mundo a dança enquanto actividade intelectual ganhou e ocupa hoje um lugar privilegiado nas cenas culturais e académicas dos países desenvolvidos. Em África, nestes últimos anos, a dança cénica, a dança de autor desenvolvida por criadores do século XXI, atentos ao mundo que os rodeia conheceu um grande desenvolvimento. São cada vez mais os coreógrafos que têm a coragem de sair das suas fronteiras para conhecer o que outros criadores fazem num mundo que é de todos, e que regressam com outras linguagens, com outras propostas, acrescentando valor ao panorama da dança nos seus países de origem.

Infelizmente nós, que estamos entre os primeiros em África a produzir dança contemporânea (desde 1991), estamos a ficar para trás…

 

Entrevista com Rui Lopes Graça

 

 

 

RD – Como encarou o desafio de vir coreografar a Angola?

 RLG – Com todo o entusiasmo e com a sensação de realização que se tem depois de se realizar algo que fizemos sem reservas. Algo feito com a dedicação criativa incondicional que estes projectos exigem.

RD – Sendo Ruy Duarte de Carvalho um criador que abarcou imensas vertentes do saber, é exclusivamente a partir da poesia e da música que se desenrola o espectáculo, ou as vertentes da antropologia, do cinema e da prosa também estarão subjacentes à peça que construíram?

RLG – A peça é um objecto feito a partir da vida e obra do Ruy Duarte de Carvalho. Nesse sentido, todas as vertentes estão presentes numa intricada teia de relações onde não é indispensável que cada uma delas se distinga. Houve um trabalho de aprofundamento do meu conhecimento em relação à generalidade da sua obra e depois houve o generoso contributo de pessoas que fizeram parte da sua vida; através das palavras dos outros foi a forma de me ligar mais profundamente à sua vida.

Por outro lado, a o espectáculo, não pretende ser literalmente aquilo que ele produziu ou viveu. “Paisagens Propícias” é um produto feito a partir disso. É uma outra visão que apesar de subjectiva tem vida própria e existe para lá dos limites dessa linearidade.

RD – Começou por passar algum tempo no deserto do Namibe. Qual a importância desse contacto para o processo de criação de “Paisagens Propícias”?

RLG – Foi fundamental. Sinto definitivamente que parte da minha vida mudou com este contacto. Este é realmente o grande benefício deste trabalho que abracei para a minha vida. Mudar qualquer coisa em mim através de cada projecto que faço.

Uma coisa é vermos a coisa escrita e falada, outra é podermos respirar o mesmo ar da pessoa com quem estamos a falar. Foi arrepiante olhar para as paisagens que ele tão bem descreve nos seus livros e sentir como a nossa visão criada pela leitura se funde com a imagem que os olhos estão a presenciar. Foi aterrador de belo ouvir os sons sentir os cheiros e ver a imensidão da paisagem que se estende infinita em frente aos nossos olhos. Foi definitivamente importante ter falado com as mesmas pessoas com quem ela falou, desde os seus amigos de longa data que até hoje guardam espólio seu, até às pessoas que o acompanhavam nas suas visitas e estadias junto do povo Mucubal.

Por outro lado, a música composta por João Lucas é feita na sua quase totalidade a partir de sons captados nesta visita. Por isso, seguramente que esta estada deu a direcção e forma final que a peça apresenta.

RD – Como está a ser a sua residência artística na CDC Angola?

RLG – Está a ser excelente. A companhia não é apenas os bailarinos, é também tudo o que está por detrás. Para que o trabalho com os bailarinos tenha sucesso é necessário que as restantes condições logísticas funcionem. Nesse sentido, o acolhimento que tive na CDCA foi notável. Senti-me em casa. Este foi um factor importante para trabalhar com entusiasmo com os intérpretes, que são pessoas que já acumularam um nível técnico que lhes permite abordar outras estéticas e formas de estar na dança. O trabalho desenvolvido pela Ana Clara ao longo dos anos, tem nestas pessoas a cristalização ou prova actual do que é o verdadeiro trabalho em dança. Um bailarino leva anos a formar e aqui temos o resultado desse árduo, cansativo e por vezes desesperante trabalho que por vezes não é notado por ninguém.

 

Carlos Ferreira

In Novo Jornal – Novembro 2012

 

NOTA da REDAÇÃO : CDC CANCELA ESTREIA DE “PAISAGENS PROPÍCIAS”

A Companhia de Dança Contemporânea (CDC) cancelou a sua temporada com inicio marcado para 1 de Dezembro.

O aparecimento de uma grande fenda numa das paredes mestras do único teatro existente em Luanda, o Nacional, que poderá abrir originando o desabamento do tecto, está na origem deste contratempo, anunciou a CDC. O seu Gabinete de Divulgação e Imagem “sente-se no dever de pedir a compreensão do público e de agradecer aos patrocinadores e parceiros compreenção, confiança e apoio demonstrados, comprometendo-se a honrar os seus compromissos logo haja condições técnicas para que o trabalho possa ser apresentado, com a dignidade artística e o indispensável rigor profissional, o que se espera no primeiro trimestre de 2013”.

A Companhia de Dança Contemporânea termina o seu comunicado de imprensa afirmando que “dando prosseguimento à sua programação e lamentando que a estreia mundial da peça “Paisagens Propícias” não aconteça em Angola, pois irá ser estreada no estrangeiro, em Janeiro de 2013”.

 

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Antonio Laginha

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